Diante um o que é que o ruído

O vice é o sociólogo Élcio Batista (PSB). Ciro apontou o apoio do PT à candidatura de Ivo Gomes, em Sobral, assim como o PDT apoia o PT em Caucaia, diante da candidatura Elmano Freitas. 'É a réplica de uma aliança que só tem um ruído, que é a candidata Luizianne. Mas nós temos uma aliança com o PT, antiga. Disponível em: . Acesso em: 19 jun. 2017 (adaptado). Diante do exposto, temos uma situação em que um tecnólogo de segurança do trabalho, necessita avaliar um ambiente onde está presente ruído intermitente com Decibelímetro, para tanto, precisa ajustar o tempo de resposta e curva de ponderação. 5. Não é permitida exposição a níveis de ruído acima de 115 dB(A) para indivíduos que não estejam adequadamente protegidos. 6. Se durante a jornada de trabalho ocorrerem dois ou mais períodos de exposição a ruído de diferentes níveis, devem ser considerados os seus efeitos combinados, de forma que, se a soma das seguintes frações: Um bit é uma unidade padrão que é usada para medir a informação ou dados na comunicação computacional e digital. Permite precisão nos sistemas de computação ao apresentar apenas 2 valores opcionais: 0, 1. Isto é referido como o sistema de valor binário. O ruído é o resultado da soma de um número muito grande de frequências, de forma que exprimi-lo matematicamente é necessário levar em conta um número muito grande de termos. Deste modo, um vulcão, quando em erupção ou um instrumento musical qualquer pode produzir um grande número de frequências. O artigo 1.336 do Código Civil esclarece que é dever do condômino não utilizar sua unidade de maneira prejudicial ao sossego, salubridade e segurança dos demais moradores. A norma técnica NBR 10152 especifica que em residências o nível de ruído não deve ser maior do que 45 decibéis nos dormitórios e 50 decibéis na sala de estar. O hiperfoco, de acordo com a medicina, é um estado de profunda concentração ou visualização mental e que faz as pessoas desconectarem de tudo a sua volta para focar em uma única tarefa ou elemento específico podendo durar horas, dias, anos e assim em diante. Diante deste fato, avalie as afirmações a seguir: I. Ruído contínuo - É uma forma de ruído que possui pouco ou nenhuma variação de nível de intensidade sonora durante um determinado tempo, e quando possui, varia de ± 3 dB, durante um período longo de observação, ou seja, “maior que 15 minutos”. II. Ruído flutuante - É o ... Um ruído branco de mascaramento é introduzido pelos fones de ouvido à medida que o paciente lê um texto em voz alta. O ruído se assemelha ao som do mar ou de uma TV fora do ar. O examinador vai aumentando a intensidade do ruído enquanto o paciente lê, monitorando o volume da voz do paciente por meio do reprodutor de conversa do ... A diferença entre som e ruído reside apenas na percepção subjetiva das pessoas, pois ambos constituem o mesmo fenômeno físico. O cérebro reconhece as vibrações sonoras que entram pelo ouvido e dão ao ser humano uma sensação que caracteriza a percepção daquele som ou ruído, que pode ser variável, envolvendo o fator psicológico de tolerância de cada indivíduo.

Martas

2020.05.23 20:39 A-Xis Martas

Madrugaste e ias estudar para a biblioteca.
A alameda do choupal que dava para o edifício da biblioteca está praticamente vazia. O frescor da manhã arrepanha, a meia-luz da alvorada tinge os edifícios ainda estremunhados. Eis então que reparas num caderno a esvoaçar por entre os galhos dos choupos. As folhas, como as asas de uma ave abatida, a tatalar ao vento, ramalham entre a folhagem. Vê-lo, então, aterrar perto de ti. A dura capa cor-de-rosa arrasta-se no chão, com as páginas abertas em leque, antes da fatídica lufada de vento, que dela fazia gato-sapato, se extinguir . Ao desfastio, passaste ao pé do caderno e miraste-o de esguelha. Como quem não quer a coisa.
«Love Note» reza a capa, em letras gordas e amistosas. Circunvês a alameda. Não há ninguém por perto. Não há edifícios altos ao pé, salvo a biblioteca lá ao longe. Pegas no caderno. A capa de coiro pintado tem um toque agradável, macio. As letras têm relevo e estão gravadas a vermelho. Não parece estar em mau estado. Esfolheia-lo. Está limpo, seco, intacto, sem nada escrito. Quase como se acabado de sair da livraria.
«De onde terá vindo?» interrogas-te, tornando a olhar derredor. «De certo não caiu do céu» magicas para contigo.
Há qualquer coisa escrita na contracapa:
Love Note
How to use:
1- The persons whose names are written in this note shall fall in love with each other.
2- Both names must be written side to side to each other, with a “+” separating them, and encased together inside the drawing of a heart.”
Despregaste o olhar do caderno. Havia mais pontos, mas não ias ficar a lê-los ao frio no meio da rua.
Deitaste o caderno à mochila e caminhaste até à biblioteca, intrigado. O que era isto? Um jogo qualquer da moda, para a canalha da escola? Estiveste para deixar o caderno onde o encontraras, mas algo no teu íntimo não se compadeceu com essa ideia. Talvez te tenha parecido um desperdício deixar um caderno em bom estado enjeitado no meio da rua. O teu amor pela escrita, pelos livros e pelo papel barafustou nos confins do teu subconsciente e não o conseguiste sossegar doutra forma. Talvez tenha sido pura curiosidade. Talvez quisesses um pretexto para procrastinar, em vez de estudar, quando chegasses à biblioteca. Quem sabe?
Arranjaste um lugar junto à janela, no segundo andar da biblioteca. Não havia quase ninguém por perto, era muito cedo. O quente da biblioteca aconchegou-te, enquanto tiravas da mochila as sebentas e os apontamentos.
Ciosamente, sacaste do caderno.
Releste as instruções, estavam escritas numa letra redonda e cuidada, com coraçõezinhos a repimpar os pontos dos is.
“3- If the circumstances according to which those two people shall fall in love are written before framing the names inside the heart drawing, they will happen.
4- If no circumstances are specified the two people will fall in love as a result of a random meet-cute.”
Relanceaste pela janela, interrompido pelo esfuziar da ventania lá fora, folhas, papeis e um pacote de batatas fritas vazio, corrupiavam no meio da rua. É claro que não acreditaste no que acabaras de ler. A ideia divertia-te descomprometidamente, como te divertia ler um horóscopo, mas o mais certo é que isto fosse só um brinquedo de meninas de escola e nada mais.
Por desfastio, correste o fecho do estojo. Pegaste numa caneta e feriste a primeira linha da primeira folha com o teu nome. A esfera lavrou o papel a tinta azul escura, com dois, três, quatro traços… e um floreio no fim, para rematar a assinatura, como se subscrevesses um cheque.
Fitaste o teu nome, quiçá para saborear com soberba a tua própria caligrafia ou para te drunfares no aroma inebriante da tinta fresca, quem sabe?
«Agora tenho de escrever o nome de outra pessoa… mas quem?» indagaste. Não conheces ninguém que te apeteça meter lá. Corres mentalmente por uma plêiade de amigas e conhecidas, como quem desbobina uma lista de contactos no telemóvel. Mas não te aventuras a escolher ninguém. Descartas as comprometidas, as mal-encaradas, as tuas ex…
Reclinas-te na cadeira. Pendes a cabeça para trás e o mundo entorna-se de pernas para o ar.
Estás a pensar demais. Estás a levar isto demasiado a sério. Lembras-te então da Marta, aos anos que não a vês. «Que é feito dela? Sei lá…» Mas a Marta estava fora de questão, tem namorado. Ou tinha, da última vez que soubeste dela.
Recompões-te na cadeira. De olhos vácuos dardejas pela janela. Rufas com os dedos no tampo da mesa, absorto.
«Como se chamava aquela assistente daquela cadeira? Tu sabes… Aquela… a gira… não era Marta também? Talvez. Mas também não a vou escrever aqui, era o que faltava...» Entalas a caneta entre dois dedos e batutas com ela no caderno. A tampa, encasquetada na ponta da caneta, martela no papel mesmo à frente do teu nome, marcando o compasso da tua indecisão.
«Conheço mais Martas?» devaneias. «Aquela servente do Pisa-o-Risco, a dos caracóis, também é Marta, não é? É capaz... Também era gira… não era? Tem um sorriso simpático.» Os retratos mentais esbatem-se uns nos outros e, a certa altura, torna-se-te difícil saber quem é quem ou como é quem. Por fim, cortas por meio deste nó mental com o gume afiado do seguinte silogismo: «Aquelas Martas eram giras, portanto, as Martas costumam ser giras».
Parece-te bem. De seguida, todas as Martas de que te vais lembrando, mesmo algumas de que mal tens a ideia de alguma vez ter verdadeiramente conhecido, figuram-te em pensamento como fulanas garantidamente atraentes.
Sem mais, sacas da caneta e rabiscas «+ Marta» à frente do teu nome. Sem pensar em nenhuma Marta em especial. O nome, por si só, preenche-te todo o pensamento: Marta.
De imediato o ferrão da caneta desenha um coração de volta dos dois nomes, desfechando o feitiço. Mal poisas a caneta, ouve-se um estrépito abafado a vir algures ao fundo, pela direita. Soslaias para ver se alguém arrastou a cadeira. Mas não. Não há cá quase ninguém e parecem todos embrenhados no trabalho.
O ruído, todavia, não esmorece, pelo contrário. Curioso, espreitas pela janela. Os tremores agigantam-se e revibram pela vidraça, o advento de um terramoto. Abres a janela, que desliza perra e aos soluços. Deitas a cabeça de fora e miras o horizonte, em busca da origem deste barulho. O pânico, de estalo, escancara-te os queixos, arregala-te os olhos, quando reparas que o tsunami que aí vem não se trata de um capricho da natureza. Não vem aí um macaréu, arrebatado das funduras do mar, mas uma descomunal vaga de gente. Corpos atrás de corpos, aos atropelos, todos ao molho numa zaragalhada imparável, a marchar na tua direcção.
Apoias-te no parapeito da janela, pasmo e quedo. Eis então que uma tremenda e amalgamada multidão se ajunta ao pé da tua janela e pára. Uma enchente de mulheres, de todas as idades e feitios, posta-se diante de ti, às rebatinhas, umas em cima das outras. És saudado por uma miríade cacofónica e indestrinçável de «olás», «boas», «tudo bens» e «eis».
Com o coração nas mãos, balbucias, estarrecido:
-Mm-Marta-a?
Um ror de sorrisos cúmplices anui, alguns risinhos nervosos fazem coro algures no meio do mulherame, seguidos de nova revoada de saudações. Sorris-lhes, descomposto, uma mão atrapalhada esboça um acenar aparvalhado.
-Hmmm… então… hã…- suspiras entredentes e coças o cachaço de nervoso - qual é o teu curso?
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2020.05.21 01:27 altovaliriano Esclarecimentos

Eu gostaria de fazer alguns esclarecimentos, pois, diante das perguntas que tenho recebido sobre posts e comentário, acredito que está havendo ruído de comunicação.

Poste o que quiser, independentemente do dia da semana.

A rotina de conteúdo não é o "tema do dia". Você pode postar sobre Ventos do Inverno na segunda-feira, postar uma teoria no domingo, postar uma pergunta na quinta-feira ou postar sobre Dunk & Egg na terça.
A rotina de conteúdo é uma obrigação que eu assumi voluntariamente há 8 meses atrás para dar impulso aos debates do subreddit nos primeiros dias da comunidade. Ocorreu uma votação em dois turnos e os temas atuais são os que ganharam essa eleição (com algumas pequenas mudanças).
Só pedimos que se atenha ao tema do subreddit e às regras do reddit e da comunidade.

Não é necessário um texto longo para criar um tópico.

Um tópico pode ser iniciado com uma pergunta no título, sem texto adicional, ou mesmo com um texto curto. Não é necessário um texto longo.
Mas se você vai expor uma teoria ou querer discutir em profundidade um tópico, é esperado que o faça bem fundamentadamente, mesmo se o texto for conciso.

Nós também falamos sobre Game of Thrones.

Todos aqui já tiveram contato com a série e as opiniões sobre ela divergem. Não hesite em começar um tópico sobre GoT por achar que está tocando em assunto proibido.

Não há um limite de tópicos por dia.

Você pode criar quantos tópicos achar que são necessários, desde sobre assuntos diversos. Os moderadores têm ferramentas para deixar os tópicos da rotina de conteúdo no topo da lista.
Porém, caso os moderadores sintam que você está fazendo flood, você poderá ser advertido ou banido e seus tópicos poderão ser apagados.

Não espere a terça-feira para postar perguntas.

A "terça de perguntas" é um dos dias mais agitados do Valiria e as perguntas feitas no "Pergunte Qualquer Coisa" ganham bastante atenção. Eu me esforço ao máximo para não deixar nada naquele tópico sem respostas.
Entretanto, caso você sinta vontade de fazer perguntas fora daquele tópico em outro dia da semana, tudo bem.

Inclusive, o 'Pergunte Qualquer Coisa' fica aberto a semana toda.

O tópico não funciona apenas na terça. O problema é que, da quarta em diante, a maioria dos usuários não presta a mesma atenção ao tópico.
Nesse caso, se você deseja que sua pergunta receba alguma atenção dos outros usuários que não sejam eu, talvez seja melhor iniciar um tópico com sua pergunta.
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2019.12.28 03:48 altovaliriano Vento Cinzento está vivo

Link: https://www.reddit.com/asoiaf/comments/4dhyal/spoilers_extended_mother_he_said_grey_wind/
Autor: alaric1224
Título Original: "Mother," he said, "Grey Wind . . ."

Muitos acreditam que o lobo gigante de Robb, Vento Cinzento, morreu com Robb no casamento vermelho. No entanto, afirmo que essa é apenas uma das interpretações possíveis e que o GRRM, na verdade, deixou várias pistas de que Vento Cinzento ainda vive.
Primeiro, precisamos analisar por que achamos que Vento Cinzento está morto. Existem quatro fontes principais.
  1. Bran acha que Vento Cinzento pode estar morto.
  2. Jon acha que Vento Cinzento está morto.
  3. Salladhor Saan nos conta o que os plebeus estão dizendo sobre a cabeça de Vento Cinzento ter sido costurada ao corpo de Robb.
  4. Merrett Frey responde perguntas sobre a cabeça ter sido costurada ao corpo de Robb.
Bran e Jon pensam que Vento Cinzento está morto, mas isso se dá em grande parte porque outras pessoas disseram a eles e de suas próprias interpretações do que seus lobos gigantes vêem. Notadamente, nem Fantasma nem Verão pensam que Vento Cinzento esteja morto. Isso é especialmente significativo porque sabemos que eles podem sentir seus próprios irmãos e irmãs. De fato, da perspectiva de Fantasma e Verão, parece que eles não sentiram a morte de Vento Cinzento do mesmo modo que sentiram a morte de Lady. São apenas os humanos que combinam os rumores que ouviram e as percepções dos lobos gigantes para chegar a uma conclusão.
É aqui que é importante ressaltar que algo não se torna verdade apenas porque um personagem POV pensa que é.
Sim, Bran pensa:
O sonho que tivera... o sonho que Verão tivera... Não, não devo pensar no sonho. Nem sequer o tinha contado aos Reed, embora pelo menos Meera parecesse sentir que havia algo errado. Se nunca falasse dele, talvez pudesse esquecer que o sonhara, e então não teria acontecido, e Robb e Vento Cinzento ainda estariam...
(ASOS, Bran IV)
Notadamente, esses são os pensamentos de Bran depois de se lembrar de um sonho que Verão teve. Um sonho que é visivelmente omitido da história (e do leitor).
E Jon pensa:
Fantasma sabe que Vento Cinzento morreu. Robb tinha morrido nas Gêmeas, traído por homens que acreditava serem seus amigos, e seu lobo havia perecido com ele.
(ADWD, Jon I)
Mas isso deixa de fora o que ele realmente percebeu quando era Fantasma, que é abordado neste excelente post por lady_gwynhyfvar do famoso da Radio Westeros.
De um post em seu blog:
Quando Jon pensa que "Fantasma sabe que Vento Cinzento morreu", mais adiante neste capítulo, ele está aceitando a direção errada dos pensamentos do lobo branco sobre seus companheiros de matilha no sonho de lobo, pois isso confirma o que ele acha que sabe em seus momentos de vigília. Temos indícios o suficientes de outros pontos de vista para acreditar no contrário. Considere esse pensamento de Bran em Verão:
Eram seus agora. Eram sua matilha. Não, o garoto sussurrou, nós temos outra matilha. Lady está morta e talvez Vento Cinzento também, mas Cão Felpudo, Nymeria e Fantasma ainda estão em algum lugar. Lembra do Fantasma? (ADWD, Bran I)
E há isso em ADwD, Jon I:
Antes eles eram seis, cinco choramingando cegos na neve, ao lado do cadáver da mãe, sugando o leite gelado de seus duros mamilos mortos, enquanto ele se arrastava sozinho. Restavam quatro... e um deles o lobo branco não conseguia mais sentir.
“Restavam quatro... e um deles o lobo branco não conseguia mais sentir” é ambíguo. Isso poderia significar "restavam quatro, e ele não podia mais sentir um desses quatro", mas também poderia significar "restavam quatro, e outro que ele não podia mais sentir". Acho que a segunda interpretação é a correta, caso contrário, teríamos que identificar qual dos quatro ele não conseguia sentir. Ele está claramente consciente de si mesmo, Nymeria e Cão Felpudo neste capítulo. Então, isso deve significar que ele não pode sentir Verão, certo?
Nas noites sem estrelas, o grande penhasco ficava negro como uma rocha, a escuridão elevando-se sobre o mundo inteiro, mas, quando a lua saía, ele brilhava pálido e frio como um córrego congelado. A pele do lobo era grossa e peluda, mas quando o vento soprava sob o gelo, nenhum pelo conseguia afastar a sensação de frio. Do outro lado, o vento estava ainda mais frio, o lobo sentia. Era onde seu irmão estava, o irmão cinzento que cheirava a verão.
(ADWD, Jon I)
Então, ele sente Cão Felpudo, Nymeria, Verão e ele mesmo... "Restavam quatro... e um deles o lobo branco não conseguia mais sentir". Em outras palavras, ele sabe que Lady está morta, mas ele simplesmente não consegue sentir Vento Cinzento.
Finalmente, é importante observar que, apenas porque um personagem POV pensa algo, não o torna verdadeiro. Por exemplo, Cersei pensa esse pensamento, que sabemos ser falso:
Dentro da torre, a fumaça dos archotes irritou-lhe os olhos, mas Cersei não chorou, como o pai não teria chorado. Sou o único verdadeiro filho que ele teve.
Notadamente, se Bran, o warg mais poderoso entre seus irmãos, não sabe que Vento Cinzento está morto, então como podemos saber que Vento Cinzento está morto?
Salladhor Saan e Merrett Frey confirmaram que Vento Cinzento está morto, não? Sim, sobre isso ... Salladhor Saan:
Por um momento, pareceu que o rei não tinha ouvido. Stannis não mostrou qualquer prazer com a notícia, nem ira, nem incredulidade, nem mesmo alívio. Encarou a sua Mesa Pintada com os dentes cerrados com força.
– Tem certeza? – perguntou.
– Não estou vendo o corpo, não, Vossa Realdade – disse Salladhor Saan. – Mas na cidade, os leões pavoneiam-se e dançam. O povo está chamando de o Casamento Vermelho. Juram que Lorde Frey cortou a cabeça do rapaz, costurou a cabeça do lobo gigante dele no lugar e pregou uma coroa sobre as orelhas. A senhora mãe dele tambémfoi morta e atirada nua ao rio.
(ASOS, Davos V)
E onde Salladhor conseguiu suas informações? Porque os plebeus sempre são precisos em suas histórias, certo?
O povo diz que o último ano do verão é sempre o mais quente. Não é bem assim, mas muitas vezes parece que é, não é verdade? (AGOT, Eddard V)
O povo diz que foi o fantasma do Rei Renly, mas homens mais sensatos sabem quem foi. (ACOK, Tyrion XV)
O vidro de dragão é feito por dragões, como o povo gosta de dizer? (ASOS Samwell II)
Em Valdocaso os plebeus ainda amam Lorde Denys, apesar da desgraça que lhes trouxe. É à Senhora Serala, sua esposa de Myr, que atribuem a culpa. Chamam-na a Serpente de Renda. Se ao menos Lorde Darklyn tivesse se casado com uma Staunton ou uma Stokeworth... bem, sabe como os plebeus gostam de falar. A Serpente de Renda encheu os ouvidos do marido com veneno de Myr, eles dizem, até que Lorde Denys se ergueu contra seu rei e o tornou cativo. (AFFC Brienne II)
Isso foi antes de morrer – o jovem Sor Arwood Frey disse. – O povo diz que a morte o mudou. Pode matá-lo, mas ele não permanece morto. Como se luta com um homem assim? E também há o Cão de Caça. Ele matou vinte homens em Salinas. (AFFC, Jaime IV)
Bem ... os plebeus não estão sempre errados. Mas eu não confiaria nos relatos deles deles como definitivos em nada.
Merrett Frey:
[...] o lobo gigante do Stark matou quatro de nossos lobeiros e arrancou o braço do mestre dos canis de seu ombro, mesmo depois de o enchermos de dardos...
– E por isso costurou a cabeça dele ao pescoço de Robb Stark depois que os dois estavam mortos – disse o do manto amarelo.
– Foi o meu pai que fez isso. Tudo o que eu fiz foi beber. Não mataria um homem por beber. [...]
(ASOS, Epílogo)
Por ter estado lá, ele deve se lembrar com precisão, certo?
Ah, exceto pela parte em que ele estava babando bêbado na época e provavelmente não se lembra de nada muito claramente.
Grande-Jon já estava para lá de bêbado. O filho de Lorde Walder, Merrett, estava competindo com ele, taça atrás de taça, mas Sor Whalen Frey desmaiou tentando acompanhar os dois. Catelyn teria preferido que Lorde Umber tivesse achado por bem permanecer sóbrio, mas dizer ao Grande-Jon para não beber era como lhe pedir para não respirar durante algumas horas.
(ASOS, Catelyn VII)
E você leia atentamente, verá que Merrett não disse que viu isso acontecer. O que Merrett viu foi Vento Cinzento livre e matando pessoas, apesar de estar cheio de dardos. Foi Limo quem sugeriu que a cabeça do lobo havia sidocosturada em Robb. E a resposta de Merrett? "Foi o meu pai que fez isso. Tudo o que eu fiz foi beber."
Então, Salladhor Saan sabe que isso acontece porque os plebeus dizem que aconteceu. E Merrett Frey estava lá, mas bebeu o suficiente para que seu irmão desmaiasse de bêbado. E ele não mencionou a costura da cabeça. Foi acusado disso e depois transferiu a culpa para o pai (que obviamente não fez isso por conta da idade avançada).
Finalmente, temos dois pontos de vista em ADWD que interagem com um grande número de Freys. Aqueles Freys, que estavam no Casamento Vermelho e não estavam bêbados, contam muitos contos, mas nenhum deles menciona uma cabeça de lobo sendo costurada no corpo de Robb. Isso não significa que não aconteceu, mas questiona quem diz que aconteceu.
Então, a cabeça de um lobo foi realmente costurada no corpo de Robb? Talvez. A cabeça de Vento Cinzento foi costurada no corpo de Robb? Umm ... não, isso é, provavelmente, logisticamente impossível.
O pescoço do homem comum tem 16 polegadas de circunferência. O pescoço médio do pastor alemão tem 18 polegadas de circunferência e é provavelmente comparável ao de um lobo cinza comum. Você poderia costurar a cabeça de um lobo no corpo de um homem e sabemos que há uma matilha gigante de lobos na área graças a Nymeria.
Por outro lado, Vento Cinzento é um lobo gigante. Qual é o tamanho do pescoço de um lobo gigante?
Meio enterrada na neve manchada de sangue, uma forma enorme atolava-se na morte. Em sua desgrenhada pelagem cinzenta formara-se gelo, e um tênue cheiro de putrefação impregnava-a como perfume de mulher. Bran viu de relance os olhos cegos repletos de vermes, uma grande boca cheia de dentes amarelados. Mas foi o tamanho da coisa que o fez ficar de boca aberta. Era maior que seu pônei, com o dobro do tamanho do maior cão de caça do canil de seu pai.
– Não é aberração nenhuma – disse Jon calmamente. – Isso é uma loba gigante. Esses animais crescem mais do que os da outra espécie.
(AGOT, Bran I)
Maior que um pônei e duas vezes o tamanho do maior cão do canil? Bem, se o pescoço tem o dobro do tamanho dos cães de caça maiores, podemos dizer com segurança que tem mais de 36 polegadas de circunferência - boa sorte costurando isso no corpo de um homem grande. Talvez devêssemos fazer a comparação do pônei. A circunferência média do pescoço de um pônei é de 40 polegadas... Mesmo se aceitarmos, argumentando que Gray Wind não estava completamente crescido como sua mãe, sua cabeça ainda é grande demais para caber no corpo de Robb. Se uma cabeça foi costurada no corpo de Robb, era a cabeça de um lobo normal, não a de Vento Cinzento.
Portanto, vimos que não temos relatos reais em primeira mão do que aconteceu, exceto o de Merrett, que provavelmente não é super preciso e que confirma que Vento Cinzento foi libertado. Também temos uma segundo relato de Walder Rivers e Edwyn Frey. Essas são os únicos relatos diretos que temos do que aconteceu com Vento Cinzento.
– [...] Diga-me, Sor Raynald Westerling conta-se entre esses cativos?
– O cavaleiro das conchas? – Edwyn fez uma expressão de desprezo. – Esse pode ser encontrado alimentando os peixes no fundo do Ramo Verde.
– Ele estava no pátio quando nossos homens foram abater o lobo gigante – disse Walder Rivers.– Whalen exigiu-lhe a espada, e ele a entregou com bastante docilidade, mas quando os besteiros começaram a encher o lobo de flechas, pegou no machado de Whalen e libertou o monstro da rede que lhe tinham atirado. Whalen diz que recebeu um dardo no ombro e outro nas tripas, mas ainda conseguiu chegar ao adarve e se atirar no rio.
(AFFC, Jaime VII)
Então, sabemos que Raynald foi capaz de lutar e fugir, pelo menos até certo ponto, e que ele foi capaz de libertar Vento Cinzento. Então, GRRM nos diz que não sabemos se Reynald foi morto. Se não sabemos se eles foram capazes de matar Raynald, como saberemos que eles foram capazes de matar Vento Cinzento?
– Deixou uma trilha de sangue nos degraus – Edwyn acrescentou.
– Encontraram seu cadáver mais tarde? – Jaime quis saber.
– Encontramos mil cadáveres mais tarde. Depois de passarem alguns dias no rio, ficam todos muito parecidos uns com os outros.
(AFFC, Jaime VII)
Nota-se que ele não diz que eles encontraram um cadáver usando o brasão dos Westerling, que ele afirma conhecer. "O Cavaleiro das Conchas?" Seu conhecimento do brasão também implica que Raynald usava o brasão, o que o tornou bem conhecido pelos outros. É improvável que Edwyn estivesse familiarizado com os brasões de casas menores do Ocidente. Eles encontraram corpos, mas aparentemente nenhum ostentava o símbolo conhecido do cavaleiro das conchas. Isso significa que Raynald provavelmente está vivo, ou pelo menos que seu corpo nunca foi encontrado. Se Raynald está vivo, Vento Cinzento provavelmente também está vivo. Eu acho que teria sido mais fácil para Vento Cinzento escapar do que Raynald. Afinal, Vento Cinzento foi nomeado por ser muito rápido:
Robb chamara seu lobo de Vento Cinzento, porque ele corria muito depressa. (AGOT, Bran II)
Como muitos respondem a quaisquer teorias apresentadas aqui ou em outros lugares, “qual seria a função narrativa da história/enredo da sobrevivência de Vento Cinzento?” Bem, muitos falaram sobre o significado de Sansa e Arya perderem seus lobos e, assim, se separarem de sua "matilha". O simbolismo é óbvio. E para Arya, enquanto ela está longe de sua "matilha", Nymeria ainda está viva e ligada à família, ela pode encontrar o caminho de volta e se reunir com sua loba gigante. Pobre Sansa - ela não tem uma loba para recuperar…
Notavelmente, muitas teorias sobre Sansa teorizam que, depois de perder Lady, ela simbolicamente deixou de ser uma Stark e que sua história acabará por torná-la uma Stark novamente. Que melhor maneira de voltar ao grupo do que recuperar um lobo gigante….
Ele os enfeitiçou, pensou Alayne naquela noite, enquanto, na cama, ouvia o vento uivar junto às suas janelas. Não saberia dizer de onde a suspeita viera, mas uma vez que lhe atravessou a mente não a deixou dormir. Virou-se e se remexeu, roendo a ideia como um cão faria com um velho osso. Por fim, levantou-se e se vestiu, deixando Gretchel com seus sonhos.
(AFFC, Alayne I)
Além disso:
Havia gelo sob seus pés e pedras quebradas só à espera para torcerem um tornozelo, e o vento uivava ferozmente. Soa como um lobo, Sansa pensou. Um lobo fantasma, tão grande quanto as montanhas.
(AFFC, Alayne II)
Olá, Vento Cinzento! E ao entrar na pele de simbolicamente, ela poderá sentir a presença de Robb ainda lá. Afinal, suas últimas palavras ecoam a última palavra de Jon. "Vento Cinzento ..." "Fantasma".
EXTRA 1: Evidência de que a Muralha não impede o aviso ou os lobos-diretos de se sentirem:
Em A Fúria dos Reis, Jon está ao norte da Muralha com Qhorin Meia-Mão quando ele tem este sonho:
Havia cinco onde devia haver seis, e estavam espalhados, todos separados uns dos outros. Sentiu uma profunda sensação de vazio, de incompletude. A floresta era vasta e fria, e eles eram tão pequenos, tão perdidos. Os irmãos estavam longe, em algum lugar, e a irmã também, mas tinha perdido seus rastros. Sentou-se nos quartos traseiros e levantou a cabeça para o céu que escurecia, e seu choro ecoou pela floresta, um som longo, solitário e lamentoso. Enquanto o som morria, aguçou as orelhas, à escuta de uma resposta, mas o único ruído foi o suspiro da neve soprada pelo vento.
Jon?
O chamado veio de suas costas, mais baixo do que um sussurro, mas forte. Pode um grito ser silencioso? Virou a cabeça, em busca do irmão, de um vislumbre de uma silhueta esguia e cinzenta em movimento sob as árvores, mas nada havia, só…
Um represeiro.
Parecia ter brotado da rocha sólida, com as raízes brancas contorcendo-se de uma miríade de fissuras e rachaduras finas como fios de cabelo. A árvore era fina comparada com outros represeiros que tinha visto antes, pouco mais do que um broto, mas crescia diante de seus olhos, com os galhos engrossando à medida que se estendiam para o céu. Com prudência, deu a volta no tronco branco e liso até encontrar o rosto. Olhos vermelhos olhavam-no. Eram olhos ferozes, mas satisfeitos por vê-lo. O represeiro tinha o semblante do irmão. Teria o irmão sempre tido três olhos?
(ACOK, Jon VII)
Pela maneira como é descrito, parece que isso é veio do Bran pós-Corvo de Sangue, mas esse não é o caso. Afinal, como vimos em A Fúria dos Reis:
Ali, na escuridão frígida e úmida da tumba, seu terceiro olho finalmente abrira-se. Conseguia alcançar Verão sempre que quisesse, e uma vez tinha até mesmo tocado Fantasma e falado com Jon.
(ACOK, Bran VII)
Bran estava em Winterfell, Jon e Fantasma estavam ao norte da Muralha, e Bran estendeu a mão e tocou Fantasma e conversou com Jon. A parede não bloqueia a detecção dos outros lobos.
Além disso, em A Tormenta de Espadas, Fantasma está ao norte da Muralha e Verão não, mas é isso que Verão pensa:
Mas às vezes conseguia senti-los, como se ainda estivessem com ele, escondidos de sua vista apenas por um pedregulho ou um pequeno bosque. Não era capaz de cheirá-los, nem de ouvir seus uivos noturnos, mas sentia a presença deles atrás de si... todos menos a irmã que tinham perdido.
(ASOS, Bran I)
Então isso novamente parece indicar que Verão podia sentir Fantasma, mesmo quando ele estava ao norte da Muralha.
Finalmente, a Muralha não era uma barreira para Varamyr entrar na pele da águia de Orell:
O troca-peles tinha um rosto cinzento, ombros redondos e era calvo, um homem que mais parecia um rato com olhos de lobisomem.
– Depois de um cavalo se habituar à sela, qualquer homem pode montá-lo – disse ele em voz baixa. – Depois de um animal se juntar a um homem, qualquer troca-peles pode entrar nele e montá-lo. Orell estava definhando dentro de suas penas, por isso fiquei com a águia. Mas a junção funciona nos dois sentidos, warg. Orell agora vive dentro de mim, murmurando como o odeia. E eu posso pairar por cima da Muralha e ver com olhos de águia.
– É assim que sabemos – disse Mance. – Sabemos como vocês eram poucos quando detiveram a tartaruga. Sabemos quantos vieram de Atalaialeste. Sabemos como seus suprimentos minguaram. Piche, óleo, flechas, lanças. Até a escada desapareceu, e aquela gaiola só pode içar uns poucos. Nós sabemos. E agora você sabe que sabemos.
(ASOS, Jon X)
Não acho que a Muralha bloqueie a mudança de pele ou impeça os lobos gigantes de sentirem uns aos outros.
EXTRA 2: Por que Vento Cinzento não pode ser detectado?
Eu acho que há várias possibilidades que explicam Vento Cinzento não ser sentido. Estas são as três que considero mais fortes:
  1. Vento Cinzento agora é especial entre os irmãos lobos gigantes, já que ele não tem mais seu ser humano. Isso pode interromper a conexão que lhes permite sentir um ao outro.
  2. Se Robb entrou na segunda vida em Vento Cinzento, pode ser que Fantasma não o sentisse mais como irmão - ele agora é um ser composto (Robb + Vento Cinzento) em vez de um ser autônomo.
  3. A capacidade de sentir um ao outro depende da força de vida dos irmãos. Mesmo que tenha sobrevivido, Vento Cinzento ficou gravemente ferido e pode estar à beira da morte, sem força vital suficiente para que seus irmãos o sintam.
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2019.06.26 06:49 altovaliriano Como não foi: Game of Thrones e a Idade Média, Parte I

Texto original: https://bit.ly/2IXUlqM
Autor: @BretDevereaux (autodescrito como "Historiador de História antiga, especializado em economia e vida militar romana")

O número de vezes que fãs entusiastas me disseram que Game of Thrones era superior a outras obras de fantasia porque mostrava que uma sociedade medieval "como realmente era" ou "mais realisticamente" está além da contagem. Às vezes, esse louvor está simplesmente exacerbado em relação ao "passado" como se a experiência humana fosse um binário entre "o agora" (quando as coisas são boas) e "o passado" (quando as coisas eram uniformemente ruins). Arguir que Game of Thrones é mais fiel à "verdadeira" Idade Média é fazer uma afirmação não apenas sobre Game of Thrones, mas também sobre a natureza da Idade Média em si. E essa afirmação merece ser avaliada.
Isso é parte do porque eu optei por olhar principalmente para o show, Game of Thrones e não a série de livros, A Song of Ice and Fire. O show - alcançando muitos milhões de pessoas e sendo muito mais culturalmente difundido - terá um impacto muito maior sobre a percepção pública do passado. Além disso, para ser honesto, a "defesa da historicidade" repetidamente feita para o show parece menos comum do que a defesa dos livros (talvez, em parte, porque os fãs de livros parecem sentir que os livros precisam de menos defesa).
Devemos também definir a Idade Média européia para fins desta comparação. A Idade Média na Europa se estende aproximadamente de 500 dC a 1450 dC, um período de quase 1.000 anos. Compreensivelmente, existe grande diferença entre o que se entendia por guerra e sociedade em 550 e em 1350. Mas os símbolos de Game of Thrones são muito mais específicos: os cavaleiros vestidos com placas, damas refinadas, torneios marciais que evocam a Alta (cerca de 1000-1250 dC) e Baixa (cerca de 1250-1450 dC) Idade Média, então esse é o período com o qual principalmente faremos comparação.
Por fim, antes de mergulharmos, duas advertências finais. Primeiro, isso não é uma crítica à construção do mundo de George R. R. Martin. Não há, afinal de contas, nenhuma razão para que o mundo de fantasia dele precise ser fiel à Idade Média européia (falaremos sobre inspirações históricas conhecidas/possíveis à medida que surgirem). Não creio que Martin tenha planejado elaborar uma dissertação de cultura medieval em forma de romance de fantasia, de modo que ele não pode ser culpado por falhar em fazer o que nunca tentou. Em segundo lugar, essa análise vai se basear mais no show do que dos livros, simplesmente porque o show está completo e é mais fácil discutir uma coisa completa - dito isso, elementos de lore que não entraram no show (mas que ainda são ilustrativos) podem surgir.
Tudo bem? Vamos mergulhar.

Destrutividade

Uma coisa sobre a qual Game of Thrones é muito clara é quão brutalmente destrutivas são as guerras de Westeros. A roda - "e assim gira, esmagando os que estão no chão" (S5E8) - quase acaba totalmente com a sociedade Westerosi. A Guerra dos Cinco Reis interrompe as condições de fornecimento de alimentos a ponto de causar fome e miséria nas Terras da Coroa e tumultos sangrentos em Porto Real (S2E6). A própria Porto Real viria a ser essencialmente destruída durante a captura por Daenerys (S8E5), provavelmente com centenas de milhares de baixas, levando em consideração a escala da destruição e o tamanho conhecido da cidade (porém falarei mais sobre isso depois).
Mas quão destrutiva é essa roda, de verdade? Podemos mensurar em números? Nem o programa nem os livros fornecem uma métrica clara para avaliar as perdas de guerra, mas considerando-se a queima de Porto Real e as repetidas menções a fome, não podem ser inferiores a várias centenas de milhares apenas em vidas civis (e possivelmente muito mais altas se incluirmos mortes da praticamente certa indigência do inverno). A esta conta devem ser acrescidos o Norte e as Terras Fluviais, que experimentaram contínua devastação e ocupação.
E quanto às perdas militares? Os exércitos da Casa Tyrell, Lannister e Baratheon foram todos destruídos em campo - vamos olhar para questões de escala em um instante - mas, por enquanto, se metade de sua força fosse de baixas, poderíamos estimar cerca de 80.000 perdas para essas Casas. As perdas para as Terras Fluviais, o Norte, Dorne, as Terras da Coroa e as Ilhas de Ferro são menos claras, mas poderíamos supor que elas equivalem aproximadamente ao total imaginado. Ao que devem então ser acrescidas as forças de Daenerys, reduzidas pela metade em Winterfell com a perda de cerca de 4.000 Imaculados e 30.000 Dothraki (nos dizem que ela perdeu "metade" de ambos).
Com base em toda essa especulação, poderíamos estimar um número mínimo de perdas nas guerras como sendo de mais de 300.000 civis e cerca de 200.000 combatentes (não incluindo perdas sofridas em Essos). Se a fome generalizada for contabilizada - e quase certamente deveria ser, considerando-se o inverno que se aproxima - o número real seria muito maior, talvez bem mais de um milhão. E deixamos de fora a destruição quase total dos Selvagens, as mortes deixada pelo exército dos mortos enquanto se deslocavam para o sul, e pelos assaltos dos Homens de Ferro. A isso seria preciso acrescentar baixas excedentes por doenças, que são mais graves do que as perdas no campo de batalha - o provável número total de vítimas poderia, assim, facilmente se aproximar de 2.000.000 ou mais.
A guerra em Game of Thrones é, portanto, não apenas endêmica, mas também chocantemente destrutiva. É importante ressaltar que a guerra em Westeros chega ao nível de significância demográfica - essa guerra é suficiente para causar uma diminuição real e perceptível na população total de Westeros (os livros não fornecem nenhuma ferramenta para estimar o tamanho da população de Westeros, mas uma estimativa de 40 milhões é perfeitamente razoável - o que significa que a guerra matou algo entre 2,5% e 5% de toda a população, em apenas alguns anos). Este é um nível de morte que os futuros arqueólogos e historiadores westerosis, escavando aldeias e lendo registros da cidade, serão capazes de identificar através da perda acentuada de população. Guerras tão destrutivas foram raras no período pré-moderno - a maioria das guerras não é "demograficamente visível" a esse ponto, porque as perdas de guerra se perdem no "ruído" dos nascimentos e mortes normais.
Apesar de que a guerra na Idade Média era frequente, geralmente não era destrutiva. Estimar a destrutividade e a escala da morte nas guerras medievais é quase impossível de ser feito com precisão devido à natureza das fontes. Mas algumas comparações podem ser feitas. A estimativa padrão para a perda de vidas devido às Cruzadas é de 1 a 3 milhões, o que significa que a Guerra dos Cinco Reis foi, em três ou quatro anos, aproximadamente tão letal quanto duzentos anos (1091-1291) da guerra religiosa medieval no Oriente Próximo. Alternadamente, acredita-se que a Cruzada Albigense - um esforço na França para suprimir a heresia "cátara" - tenha matado algo entre 200.000 e 800.000 pessoas; o cerne da violência durou vinte anos (1209-1229), mas o número de mortos tipicamente também inclui décadas de expedições da Inquisição que só foram terminadas em 1350, um século e meio após o início da cruzada. É importante notar que essas guerras - que ainda estão longe da escala e da intensidade da guerra em Westeros - foram guerras religiosas, onde as normas que impediam a violência contra civis eram muito mais fracas.
A maioria das guerras não eram guerras religiosas, e estas tendiam a ser significativamente menos destrutivas, especialmente para os camponeses que compunham a grande maioria da população. Em parte, isso se devia simplesmente a bom senso: em uma guerra territorial, o controle sobre o campesinato e sua produção agrícola era o objetivo, então assassinar massivamente o campesinato tinha pouca serventia. As guerras entre Senhores poderiam assim muitas vezes ocorrer "acima das cabeças" do campesinato (embora o perigo invasão ou de ter comida roubada para uso pelos exércitos permanecesse agudo - nós não devemos minimizar o quão difícil essas guerras poderiam ser para as pessoas "no chão").
Outro fator foi um conjunto de normas sociais. Apesar de que a Idade Média tenha sido um período de frequentes (pequenas) guerras, nela também se viu alguns dos primeiros esforços para reduzir a violência em sentido amplo, originados pela Igreja Católica: os movimentos de Paz de Deus e Trégua de Deus. A Paz de Deus (do séc. X-XI) deu proteção religiosa ao campesinato e ao clero (e mulheres e viúvas) enquanto não-combatentes. A Igreja encorajou cavaleiros e senhores a fazer juramentos no sentido de que eles não violariam a paz atacando o campesinato.
Isso não quer dizer que essa proibição sempre era seguida - na prática, parece ter sido em grande cumprida via de exceção. Mas é um claro contraste com a guerra em Westeros, onde atacar a população civil é claramente normal - Tywin não hesita em “colocar as Terras Fluviais em chamas desde o Olho de Deus até o Ramo Vermelho” (S1E10) e nenhum dos seus estandartes questiona a ordem. O esforço de Cersei na 8ª Temporada para impedir o ataque de Daenerys por meio da concentração de civis só é posto em ação porque ela acha que Daenerys é diferente de um senhor normal - os quais provavelmente ignorariam o obstáculo.
Nesse sentido, a guerra em Westeros é menos parecida com a guerra na Idade Média - onde, observada ou não, havia um senso geral de que alguns indivíduos eram "civis" e, portanto, não eram alvos militares válidos - e mais como guerra na Antiguidade. Para os romanos, por exemplo, as guerras eram geralmente contra os povos - os romanos falariam sobre estar em guerra com os cartagineses (todos eles) ou com os celtiberos (todos eles) ou os helvécios (todos eles). A única exceção são as monarquias helenistas do Oriente, que eram as posses pessoais das famílias reais, em vez de grandes grupos étnicos - ali os romanos foram à guerra com monarcas individuais. Mas essa foi a exceção, e não a regra.
Nesse contexto, onde os romanos estão em guerra com todo um povo, todo o povo se tornou alvos militares válidos. E os romanos se comportavam como tal. Políbio descreve o processo romano para saquear uma cidade - “Quando Cipião pensou que um número suficiente de tropas tinha entrado [na cidade] ele enviou a maioria deles, segundo o costume romano, contra os habitantes da cidade com o fim de matar todos que eles encontrassem, poupando nenhum, e começassem a pilhagem até que o sinal fosse dado ... muitas vezes pode-se ver não apenas os cadáveres dos seres humanos, mas os cães cortados ao meio e os membros desmembrados de outros animais ... ” (Políbio 10.15.4-5; grifei). Tal massacre não era visto como fora das regras da guerra, mas sim uma consequência normal de tentar resistir a um exército sitiante. Uma cidade que quisesse evitar o massacre deveria se render antes que o cerco começasse pra valer (o último momento para se render, sob as regras romanas de guerra, era antes que o primeiro aríete tocasse a muralha da cidade).
É verdade que, em certas ocasiões, o mesmo tipo de matança indiscriminada ocorreu na Idade Média, quase sempre no contexto de guerras religiosas (onde, por que os inimigos eram hereges ou infiéis, as restrições religiosas à violência não se impunham), mas mesmo isso é tipicamente apresentado pelas fontes como incomum e chocante. A captura de Jerusalém durante a Primeira Cruzada (1099) é o exemplo típico de acentuada brutalidade medieval - os cruzados massacraram grande parte da população da cidade em uma terrível onda de derramamento de sangue.
Raymond d'Aguliers, uma testemunha ocular, diz assim do massacre: "se eu disser a verdade, excederá seu poder de crença" (transcrição de A. C. Krey, The First Crusade: The Accounts of Eye-Witnesses apud Edward Peters, The First Crusade: The Chronicle of Fulcher of Chartes and Other Source Materials) - ainda que tal massacre tivesse sido normal e indigno de nota no mundo romano - e, aparentemente, em Westeros. O que era excepcional em 1099 dC era normal em 199 aC - ou em Porto Real.
É claro, há outra razão pela qual as guerras medievais tendiam a ser muito menos destrutivas - os governantes medievais simplesmente não tinham a capacidade - na administração, infraestrutura e recursos - para causar tantos danos. O que nos leva a:

Escala na Guerra

A guerra na Europa medieval era geralmente um assunto relativamente pequeno. Enquanto muita atenção é dada às guerras entre os reis - a Guerra dos Cem Anos, a Guerra das Rosas, etc. - a grande maioria dos conflitos era pequeno, entre senhores regionais com propriedades limitadas. Esse tipo de guerra envolvia muitas vezes "exércitos" de apenas dezenas ou centenas de homens. No passado, tive alunos que liam trechos das muitas queixas de Hugh V de Lusignan (que datam de 1028). Hugh está perpetuamente em conflito militar com seus vizinhos, mas a escala de tais conflitos é pequena - ele leva apenas 43 cavaleiros para tentar ganhar um castelo e algumas terras, por exemplo (o que ainda era uma força grande o suficiente que o seu Senhor, o conde de Aquitânia, estivesse ciente de que ele a tivesse levado e ordena que ele retorne à corte). O mesmo tipo de guerra de pequena escala povoa as "canções de gesta" (francês: Chasons de Geste), como o de Raoul de Cambrai, onde Raoul passa o poema tentando recuperar o feudo de Vermandois (a canção de gesta de Raoul também se relaciona com o ponto anterior sobre normas de guerra: Raoul quebra a Paz de Deus atacando um convento, que faz com que seu melhor cavaleiro, Bernier, se posicione contra ele; Bernier então mata Raoul em batalha, levando a uma briga de sangue entre as famílias. Note como a transgressão da proteção religiosa devida aos não-combatentes leva à morte dos protagonistas e uma fissura permanente na comunidade - a moral é clara: não ataque os não-combatentes).
Em comparação, os exércitos de Westeros são enormes. Acreditando-se na Wiki of Ice and Fire, podemos estimar os exércitos de campanha - não incluindo guarnições e outras forças pequenas - de cada um dos principais atores como sendo de aproximadamente:

O Norte: 20-30.000 (mas lento para reunir; poder nocional 45.000)
Ilhas de Ferro: 20.000
Terras Fluviais: cerca de 20.000 (poder nocional 45.000, mas politicamente dividido)
Vale de Arryn: Aproximadamente igual ao Norte ou Dorne (cerca de 45.000, no nocional)
Terras Ocidentais: 35.000 no campo durante guerra (nocional: 55.000)
Terras da Coroa: 10.000 a 15.000
Terras de Tempestade: cerca de 30.000
Campina: 80.000-100.000 partiram com Renly (!!)
Dorne: estima-se que cerca de 50.000 estariam à disposição dos Martells

Em comparação, o exército francês em Azincourt (1415) não era maior do que talvez 35.000 homens (alguns historiadores argumentam que era significativamente menor), mas sua derrota foi suficiente para aleijar a França (sugerindo que o exército representava a maior parte das forças de campanha à disposição do rei da França na época). A força de campanha inglesa era menor - apenas cerca de 9.000. Azincourt não era uma pequena escaramuça: eram exércitos reais que representavam o melhor que seus reis podiam fazer (Henrique V, rei da Inglaterra, estava com seu exército, de fato). Nem esses tamanhos típicos eram restritos à Inglaterra e à França. A Batalha de Nicópolis (1396) foi entre os otomanos de um lado e uma grande aliança de poderes cristãos do outro, e provavelmente não envolveu mais do que 40.000 homens de ambos os lados (ou seja, dois exércitos de cerca de 20 mil), apesar do fato de que a batalha estava entre os bem organizados otomanos de um lado e mais de uma dúzia de potências européias do outro.
Em comparação, os exércitos de Westeros são enormes - e os números acima não incluem as várias frotas de centenas de navios que muitos senhores mantêm. Renly Baratheon sozinho tem uma coluna em campo de 100.000 homens; Mace Tyrell depois marcha para Porto Real com 70.000 soldados Tyrell. Em comparação, em 1527 - bem no início do período moderno (onde o tamanho do exército salta acentuadamente) - todo o exército otomano consistia de 18.000 soldados regulares e 90.000 timariots (grupo étnico da Turquia convocados para lutar em campanhas específicas, de modo similar a cavaleiros e seus seguidores). Os otomanos estavam muito melhor organizados do que qualquer poder europeu medieval (daí a exigência de que a oposição à expansão otomana requeresse grandes alianças - veja acima). E todas essas tropas otomanas absolutamente não poderiam ser mantidas em um só lugar, como Renly faz com sua coluna.
Não adianta ressaltar que Westeros cobre uma área enorme, porque isso simplesmente introduz novos problemas: a logística de exércitos tão grandes provavelmente está além da capacidade da maioria dos governantes europeus medievais. Mesmo os romanos - cuja capacidade logística excedia significativamente a do período medieval - raramente reuniram exércitos tão grandes quanto os de Renly ou o de Mace Tyrell e apenas por curtos períodos. Tibério (na condição de general sob o imperador Augusto) reuniu um exército de cerca de 100.000 para lidar com uma revolta em Illyricum (região que atualmente corresponde à Albânia, Bósnia, partes da Croácia e Eslovênia) - o exército foi suficiente para levar a província à fome em um único ano (o que parece ter sido, de fato, o objetivo de Tibério - suprimir a revolta negando suprimentos) e nunca se afastou dos rios (por meio dos quais poderiam chegar suprimento de regiões distantes).
O exército de Mace Tyrell teria que ter marchado pela Estrada da Rosa por cerca de 850 milhas para chegar a Porto Real. Ele provavelmente não se moveu mais rápido do que 10 milhas por dia, então esteve em marcha por 85 dias (decore esse número - nós voltaremos a ele). 80.000 homens, juntamente com animais de carga em um trem de carga bastante enxuto - eram cerca de 20 mil mulas (sim, um trem de bagagem bastante enxuto para um exército deste tamanho!) - consumiriam cerca de 189 toneladas de alimentos por dia. O exército deve ser capaz de carregar cerca de 20 dias com ele (supondo que as mulas estão puxando muitos vagões grandes e lentos) e é grande demais para se abastecer simplesmente pilhando os camponeses locais enquanto ele se move. Isso significa que os Tyrell terão que preparar estoques de alimentos em pontos-chave ao longo de toda a Roseroad. Quanta comida? Supondo que o exército parta de Highgarden totalmente suprido (isso parece improvável), seriam 12.285 toneladas . E isso sem conta a comida dos cavalos.
Nenhum rei medieval tinha acesso a esses tipos de recursos, nem ao tipo de administração que poderia obter quantidades tão grandes de suprimentos. O Império Romano poderia fazer isso - mas exigia o envolvimento de funcionários do Tesouro, magistrados locais e um sistema de suprimento pronto (que era mantido por um grande exército permanente de soldados profissionais). O que leva a:

Montagem de exército, para leigos

Lembra-se daquele número de 85 dias? Voltaremos logo a ele. Em breve. Eu prometo.
A frase que enfio na cabeça dos meus alunos sobre a estrutura dos exércitos medievais é que eles são uma comitiva de comitivas. O que quero dizer com isso é que o modo como um rei medieval forma seus exércitos é que ele tem um bando de aristocratas militares (leia-se: nobres) que lhe devem o serviço militar (eles são seus "vassalos") - sua comitiva. Quando ele vai para a guerra, o rei pede que todos os seus vassalos apareçam. Mas cada um desses vassalos também tem seu próprio bando de aristocratas militares que são seus vassalos - sua comitiva. E isso se repete, até chegar a um cavaleiro individual, que provavelmente tem um punhado de não-nobres como sua comitiva (talvez alguns de seus camponeses, ou talvez ele tenha contratado um ou dois mercenários para segui-lo).
Se você quiser ler uma visão realmente detalhada (e bastante seca) de como isso funcionou, dê uma olhada em The English Aristocracy at War (2008), de David Simpkin; ele vasculhou registros ingleses sobreviventes de cerca de 1272 a 1314 e analisa (entre outras coisas) o tamanho médio das comitivas. A comitiva média encontrada foi de cinco homens, embora senhores importantes (como os condes) pudessem ter centenas de homens em suas comitivas (que, por sua vez, eram compostas pelas comitivas de seus próprios seguidores). Assim, a comitiva do nobre é a comitiva combinado de todos os seus servires, e o exército do rei é o total combinado dos seguidores dos seguidores de todos, se isso fizer sentido. Assim: uma comitiva de comitivas.
Esse é exatamente o sistema segundo o qual o Game of Thrones afirma que seus exércitos funcionam. Os grandes senhores - pessoas como Tywin Lannister - "convocam seus estandartes" e seus bannermen - o termo Westerosi para vassalos (e presumivelmente uma versão direta do que era chamado historicamente de "cavaleiro banneret" \ou cavaleiro-abandeirado])) - a forma mais baixa de aristocrata que teria sua própria bandeira e, portanto, sua própria unidade militar) aparecem com suas próprias comitivas, exatamente como acima. E, à primeira vista, isso parece bastante medieval - foi assim que os exércitos medievais da Alta e da Baixa Idade Média eram formados (principalmente). O problema é que os exércitos em Westeros nunca parecem funcionar dentro das restrições desse sistema .
Primeiro, o óbvio: este sistema, onde os exércitos são montados com base em relacionamentos pessoais e onde as unidades menores são geralmente muito pequenas, simplesmente não têm a capacidade de aumentar de escala para sempre. Há apenas alguns seguidores com que um rei pode manter um relacionamento pessoal - e assim vai fila abaixo.
Em segundo lugar, esses seguidores não "seguiam" servindo para sempre. Eles são obrigados a um certo número de dias de serviço militar por ano. Especificamente, o número padrão - que vem do estabelecido por Guilherme, o Conquistador, para seus vassalos depois de tomar o trono inglês - era de 40 dias. O ponto principal deste sistema é que o rei dá aos seus vassalos a terra e eles lhe dão serviço militar para que ninguém tenha que pagar nada a ninguém, porque os reis medievais não têm a receita requerida para manter exércitos permanentes de longo prazo. Não é por acaso que os conflitos medievais mais destrutivos foram as guerras religiosas em que os guerreiros participantes estavam essencialmente engajados em uma "peregrinação armada" e assim poderiam permanecer no campo por mais tempo (tendo Deus um direito maior ao tempo do cavaleiro do que o rei).
Finalmente, imagine organizar os suprimentos de um exército como este. Cada unidade de comitiva tem um tamanho diferente: Lorde Tarly pode ter algumas centenas de homens, Lorde Risley, algumas dúzias, Lorde Hastwyck apareceu apenas com sua guarda doméstica de cinco e assim por diante (por dezenas e dezenas de comitivas). Você - o intendente do rei - não sabe quão grande são cada um destas comitivas, mas você deve racionar e distribuir comida para que não fique em uma posição onde uma comitiva morra de fome enquanto os outros tenha em excesso. Você também precisa coordenar o trem de bagagem de comida sobrando... mas é claro que a maioria dos vagões e animais de carga pertence a todos os senhores menores com suas pequenas comitivas. Você começa a ver o problema: suprimento centralizado - necessário para manter um grande exército alimentado - é praticamente impossível.
[Se você quiser ler sobre as dificuldades de manter um exército da Idade Moderna (com suprimento e logística um pouco mais centralizados) unido por longas distâncias, pense em ler The Army of Flanders and the Spanish Road , de Geoffrey Parker, e tenha em mente que, em seu apogeu, o exército que ele descreve (com os desafios intransponíveis de pagá-lo e supri-lo) nunca foi maior do que 90.000 homens - menor do que a coluna de Renly Baratheon - e tendia a ser, em média, um pouco menor de 60.000].

Que tipo de exército é esse?

Então, para resumir o que nós cobrimos até agora: a guerra em Westeros não é realmente muito medieval. Enquanto nos dizem que os exércitos estão organizados em linhas medievais, eles são muito grandes e as guerras que eles empreendem são muito mais destrutivas do que o normal para conflitos políticos (leia-se: não-religiosos) da Idade Média. Além disso, eles parecem não ser limitados pelas normas culturais da Idade Média (como a Paz de Deus), ou pelos limites logísticos comuns aos (mal organizados) exércitos medievais.
Há algum tempo na história européia em que esses exércitos se encaixariam melhor?
Acho que a resposta para isso é "sim" - esses exércitos não são medievais, mas da Idade Moderna em seu tamanho, capacidade e destrutividade.
Várias coisas colocam o período moderno à parte da Idade Média, mas o que mais nos interessa aqui é a capacidade do Estado. O que quero dizer com isso é a aptidão do estado (leia-se: o rei) de extrair receita e usar essa receita para fazer coisas (mobilizar forças militares, reformar a sociedade, contratar burocratas para extrair mais receita, etc.). Os reis medievais tinham uma capacidade estatal muito limitada, porque seus próprios nobres - os quais (ver acima) tinham seus próprios exércitos - trabalhavam para limitar o poder do monarca central. Em contraste, o período moderno (cerca de 1450-1789) é de crescente capacidade do Estado, à medida que os monarcas começam a centralizar agressivamente a governança de seu país.
Mudanças na natureza dos exércitos é tanto uma causa quanto um efeito disso. O poder real centralizado permitiu que exércitos maiores, mais padronizados e mais profissionais aumentassem as receitas reais fora do controle da nobreza - que eram, por sua vez, mecanismos eficientes para a supressão da nobreza e, assim, maior centralização de poder (eu deveria anotar: o conhecimento sobre os mecanismos exatos pelos quais isso acontece é volumoso e contestado - esta é apenas uma descrição geral do fenômeno; ch7 de Waging War de Wayne Lee (2016) é na verdade uma introdução bastante acessível ao leigo à história e ao debate se você quiserem).
Como já observei em outro lugar, a linguagem visual usada por Game of Thrones para todos os exércitos de Westeros, exceto para os do norte, é tirada do início do período moderno. Esses exércitos têm equipamento uniforme - supostamente fornecido por arsenais do Estado - e foram treinados e preparados para marchar e lutar em sincronia. Mesmo se dispensarmos a representação visual dos exércitos como erros da parte do show, o fato de esses exércitos poderem permanecer no campo mês após mês implica que pelo menos partes significativas dessas forças são efetivamente profissionais e pagas pelo seu serviço, em vez de terem sido formadas em um sistema de vassalagem.
O tamanho dos exércitos também aponta nessa direção. Embora a trajetória exata do crescimento do exército na início do período moderno seja um tanto contestada, o que não é contestado é que os exércitos no início do período moderno eram substancialmente maiores do que os do final da Idade Média. Dos exércitos medievais nos milhares ou nas primeiras dezenas de milhares, os exércitos das grandes potências da Europa passaram às últimas dezenas de milhares nos anos 1500 e depois ultrapassaram bastante os 100.000 em meados do século XVII. Esses exércitos geralmente não estavam concentrados em um só lugar devido a questões de logística, mas a capacidade destrutiva geral do estado aumentara várias vezes.
Assim, enquanto George RR Martin frequentemente apontava para a Guerra das Rosas (1455-1487 - portanto, ressalto, uma guerra moderna, não medieval) como inspiração histórica para Game of Thrones, a escala do conflito e o tamanho dos exércitos mais claramente evocam as guerras dos séculos XVI e XVII, como a Guerra dos Trinta Anos (1618-1648). Como se pode imaginar, exércitos maiores geralmente significam maiores “danos colaterais”, então vamos ver como o período moderno se compara à Idade Média na destrutividade da guerra.
As guerras dos séculos XVI e XVII - especialmente a Guerra dos Trinta Anos - foram chocantemente destrutivas em comparação com o que acontecera antes. Parte da razão para isso foi a natureza dos conflitos: muitas dessas guerras nasceram da Reforma Protestante e foram, portanto, guerras religiosas, colocando protestantes contra os católicos. Nesse tipo de guerra - ao contrário de uma disputa política sobre um trono ou território - a população inimiga se torna alvo de violência por acreditar na coisa "errada". Na Guerra dos Trinta Anos, exércitos católicos destruíram aldeias protestantes e vice-versa, com o objetivo de mudar a composição religiosa da região pela violência.
Mas nem todos os conflitos desse período foram guerras religiosas. Apesar de que as guerras seculares nunca atingiram a carnificina da Guerra dos Trinta Anos, elas ainda eram marcadamente mais destrutivas do que as anteriores. Outra razão para isso foi a melhora dos próprios exércitos - você verá pessoas atribuindo isso à pólvora, mas os mosquetes de tiro lentos não são muito mais destrutivos do que as armas do passado. Mas um exército medieval - como já discutimos - só poderia ter um certo tamanho e só poderia permanecer no campo por um determinado tempo. Mas os novos exércitos permanentes do início do período moderno eram formados por profissionais que podem guerrear o ano todo e eram ainda maiores. Além disso, a Reforma - ao dividir o poder da Igreja - enfraqueceu as próprias normas religiosas que às vezes restringiam a violência (mesmo que fracamente) na Idade Média. A conseqüência foi exércitos mais capazes e mais dispostos a infligir danos à população em geral.
Por fim, o vultoso tamanho desses exércitos também contribuiu para maiores níveis de destrutividade de um modo diferente e inesperado: eles pelejaram contra as limitações derradeiras da logística pré-ferroviária. Enquanto os governos lutavam para pagar, alimentar e equipar esses soldados, os exércitos no campo eram forçados a se abastecerem localmente e a pagar soldados com saque capturado, às custas da população local. Sob essas condições, restringir os soldados famintos de cometer atos de extrema violência para obter comida ou saque tornou-se cada vez mais difícil, beirando o impossível. Os exércitos no campo tornaram-se forças quase elementares de destruição, evoluindo de fazer cerco e batalhar para fazer cerco e destruir a região por qual passassem.
Assim, a Guerra dos Trinta Anos (1618-1648) despovoou grande parte da Alemanha moderna, matando cerca de um quarto de toda a população (mas a carnificina costumava ser muito localizada - algumas áreas estavam efetivamente intocadas, enquanto outras estavam completamente despovoadas). Nos Países Baixos, a Guerra dos Oitenta Anos (1568-1648) criou uma terra de ninguém despovoada onde os dois lados (os exércitos espanhóis e holandeses) se encontraram em um longo impasse defensivo. Os exércitos espanhóis, tendo ido muito tempo sem pagar, também saquearam Antuérpia (1576) - a sede regional do governo espanhol - para recuperar seus atrasos no pagamento por meio de saques, danificando severamente a economia local por décadas e matando milhares de habitantes.
Esse tipo de guerra - menos limitada, com exércitos maiores, mais destrutivos e mais vorazes - está muito mais perto do que vemos em Game of Thrones . Ironicamente, Joffrey sugere (S1E3) construir um exército de estilo moderno e a idéia foi descartada por Cersei . Algum pode pensar, no entanto - considerando-se que Cersei sabe pouco sobre a guerra e não é tão inteligente quanto ela pensa - se Tywin não já havia começado a usar o ouro Lannister para construir o exército de estilo moderno que ele aparentemente já possui.

Conclusões sobre o Medievalismo Militar

A situação militar em Westeros, portanto, não parece se encaixar muito bem na Idade Média européia. Os exércitos de Westerosi não parecem ser limitados a curtos períodos de serviço militar comum nos exércitos medievais, eles são muito maiores do que os exércitos medievais alguma vez foram e são significativamente mais destrutivos. Além disso - e este é um tópico que retomaremos na próxima vez - eles parecem não restringidos pelos limites sociais e religiosos à violência da Idade Média. Não devemos florear demais ​​- esses limites eram frequentemente mais honrados via de exceção do que observados (e eles não se aplicavam a todos igualmente). No entanto, o aumento acentuado da mortalidade militar no período moderno atesta o fato de que esses limites - os limites organizacionais, juntamente com os culturais - resultaram, de fato, em um nível geral de violência mais baixo.
Parece que quase qualquer discussão sobre a Idade Média começa com “este período foi extremamente violento”. E há alguma verdade nisso - comparado ao mundo moderno, os reis e senhores medievais foram muito à guerra. A guerra era uma parte normal da vida. Mas em comparação com o período moderno inicial ou mesmo com a antiguidade clássica, essas guerras costumavam ser relativamente pequenas e seu impacto era limitado. Em comparação com o período moderno (ou seja, nosso período histórico) - bem, conseguimos matar mais pessoas (num sentido absoluto) em um único espasmo horrível de violência que abalou a terra de 1937 a 1945 (cerca de 85 milhões de pessoas) do que provavelmente morreu em todas as guerras medievais europeias combinadas. Violência é relativa. Comparado com a longa paz do Império Romano (27 aC - c. 235 dC; o próprio império durou até cerca de 450 dC no Ocidente (e 1453 dC no leste), mas seus últimos séculos foram mais violentos), de fato, a Idade Média foi bastante violenta. Mas comparado ao que veio depois, a Idade Média teve mais guerra, porém menos morte (e nós nem sequer discutimos a catástrofe humana que foi a descoberta do novo mundo ...).
Isso significa que Martin "falhou" de alguma forma? Não - de modo algum. Novamente, A Song of Ice and Fire não é uma dissertação de história disfarçada, é um romance de fantasia. Martin construiu uma sociedade com suas próprias regras e sistemas e então seguiu essas regras e sistemas sociais até onde elas levam. Em vez disso, o que quero enfatizar é que - no que diz respeito a assuntos militares - os exércitos de Westeros não são muito parecidos com os exércitos da Idade Média européia, apesar das semelhanças entre cavaleiros, armas e armaduras.
Não obstante, observar a diferença entre a Idade Média e Westeros é importante porque reformula um dos temas centrais do cenário. É reconfortante pensar que a violência descontrolada em Westeros é o produto de algo - uma cultura de cavaleiros guerreiros e violência - que não temos mais. Mas o oposto é verdadeiro: a violência fora de controle, do tipo que Westeros possui, é o produto de algo que ainda temos muito: a tremenda capacidade do Estado administrativo moderno para a violência.
Nossos estados administrativos modernos podem fazer coisas maravilhosas - eles constroem estradas e escolas, fornecem cuidados de saúde (às vezes), podem cuidar dos pobres e regular os locais de trabalho. Mas eles também podem produzir quantidades espetaculares e horripilantes de violência. É essa tarefa - a violência, não as escolas ou as estradas - para as quais eles foram projetados e às quais eles permanecem mais aptos. Nós nos esquecemos disso (fingindo que tal violência pertence apenas à HBO e ao passado distante) por nossa conta e risco.
Na próxima vez, veremos como funcionam as normas culturais e religiosas na sociedade Westerosi. A Idade Média na Europa foi, em muitos aspectos, definida por fortes normas culturais e especialmente religiosas. Quanto se parece com Westeros?
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2019.06.06 17:38 El_Buga [DQ] Lina

Lina abriu os olhos. Era tudo o que restava fazer. Diante dela, estava o mesmo teto que diligentemente a cobriu e protegeu por décadas, fornecendo à idosa um fino véu de segurança, por mais frágil que fosse essa sensação nos dias atuais. Comprara aquele apartamento, relativamente bem localizado e apenas no ducentésimo-trigésimo-oitavo andar do edifício, no último período de crescimento econômico. Cerca de uns quarenta anos atrás. Já não lembrava a data direito.
Admirou rapidamente o homem que dormia ao seu lado, Jorge, de idade semelhante à dela. Era tudo o que restava fazer. O homem com quem decidiu que passaria o resto de seus dias alternava entre ressonar e roncar. Nem sabia se ainda restavam muitos dias para ela, de qualquer forma. Não que isso importasse. Mas não se arrependia de sua escolha, nem por um instante.
O aumento de sua atividade cerebral terminou conjurando a tela diante de seus olhos, em pleno ar, dando-lhe bom dia. Jorge resmungou alguma coisa. A senhora fez um gesto com o dedo indicador, chiando bem baixinho, como que pedindo silêncio ao recém-surgido holoterminal. Um indicador de volume surgiu na tela e reduziu o volume em 90%. Esquecera de configurar o áudio do modo sono do aparelho, pois chegara em casa cansada no dia anterior: ainda que bem localizado, seu apartamento não era exatamente próximo ao Setor Comercial. A viagem pelos ares era longa e cansativa, e o transporte público, que nunca fora tão parco, tornava a viagem um suplício. Péssima hora pro anterior resolver quebrar. Mas, se tem algo que jamais mudou, é que eletrônicos sempre nos abandonam nas horas mais inconvenientes. Substitui-lo era tudo o que restava fazer. Não queria tornar-se uma suspeita aos olhos do governo ao repentinamente sumir da grande rede por um período prolongado.
Ainda assim, seu holoterminal anterior durara quase vinte anos, algo considerado impressionante — antes, quando a maior parte das pessoas trocava assim que um novo e mais potente modelo era posto à venda, e também agora, onde poucos tinham condições financeiras de adquirir um. Passara muito tempo sem acompanhar os avanços tecnológicos por conta disso, e agora via que este novo modelo tinha várias novas capacidades: entre elas, a de responder a comandos mentais. Mas Lina preferiu a velha interface de toque, que felizmente ainda era uma opção. Sentia que ela tinha mais controle e precisão desta forma. Ademais, sua mente já era tão confusa, que ela temia acabar fazendo com que a máquina realizasse ações indesejadas, respondendo a ocasionais pensamentos andarilhos.
Dispensou a tela flutuante com um gesto de sua mão. A tela deslizou em pleno ar, rapidamente tornando-se translúcida, e gradativamente desaparecendo, como uma música que se encerra. A senhora levantou-se da cama: iniciaria seu simplório ritual de todas as manhãs. Era tudo o que restava fazer.
Chegando até a cozinha, mergulhada na penumbra pela ainda incipiente luz do Sol do lado de fora, procurou e encontrou a cafeteira. Com um olhar de Lina, o aparelho começou a emitir ruídos leves, obedecendo ao comando mental da senhora. Cafeteiras não podiam produzir nada que não fosse café, então os mesmos riscos não se aplicavam aqui.
Recostou-se na parede e mergulhou nos pensamentos, sua mente embalada pelos ruídos da cafeteira e do tráfego aéreo, que já começava a se intensificar do lado de fora do edifício. Ainda que fosse tão lugar-comum nos dias atuais, ela não conseguia deixar de pensar em como a tecnologia era simultaneamente algo fantástico e algo potencialmente terrível… sobretudo nos últimos anos. Deteve seu olhar na cafeteira, que já enchia seu único compartimento, de vidro, com café. Estava diante de moléculas de oxigênio tendo seus átomos reorganizados e reunidos em compostos diferentes: todos unindo-se para formar café, com a intensidade e doçura exatas que ela preferia — dados esses obtidos diretamente de sua mente por meio de seu holoterminal, que conectou-se com a cafeteira. Jorge, seu esposo, já preferia que a cafeteira produzisse um café mais doce e menos forte — e que ela francamente achava intragável.
O aparelho continuou a vagarosamente dispensar café até encher sua caneca. Ela retirou-a, e em seguida caminhou até a sala de estar. Era tudo o que restava fazer. As cortinas automaticamente abriram-se, seu novo holoterminal mais uma vez interpretando seus pensamentos e convertendo-os em ações, atuando sobre os aparelhos do apartamento.
Não havia nuvens naquele dia: a chuva estava programada apenas para o fim de semana, segundo o site do sistema de controle climático. Lina viu-se diante de uma intensa linha de tráfego aéreo, atravessando diretamente o ainda enorme disco solar no horizonte, fazendo com que os raios de Sol, com sua radiação e luminosidade devidamente filtradas pelos vidros adaptativos, cintilassem erraticamente pelo ambiente. Aquela seria uma visão e tanto, se não fossem pelos espigões de quinhentos ou mais andares em volta atrapalhando. Alguns cinzentos e alguns de aspecto cromado, estes últimos refletindo a luz solar como se fossem holofotes.
Bebericando seu café, Lina suspirou profundamente. Era tudo o que restava fazer. Foi assaltada pela mesma lembrança de sempre. Já tinha dias desde que aqueles dois estiveram em seu apartamento, tendo chegado ali apavorados: fugitivos da polícia, que chegou ao ponto de alvejá-los de forma covarde, com projéteis de grosso calibre. Um deles dilacerou a canela da menina, que veio carregada pelo rapaz que a acompanhava, que estava incrivelmente pálido, de tão apavorado. Felizmente, a jovem levava consigo um remédio composto de nanorrobôs, capazes de reconstruir seus tecidos em minutos. Salva pelo gongo. Por pouco não sucumbiu à hemorragia severa que lhe acometeu.
A associação que Lina fazia, daqueles dois jovens estranhos com seus sobrinhos, era inevitável. Eles eram muito parecidos, até no comportamento. Sentia uma saudade apertada dos dois. Não mereciam o destino que tiveram. Culpados por terem nascido fora das normas do governo atual. Sentenciados pelos júris, juízes e executores que agora detinham absoluta autoridade sobre a vida e a morte de cada alma viva naquele planeta. E enquanto Lina divagava, um desses júris, juízes e executores passou rapidamente diante de sua janela. Um dos drones patrulhava, escaneando todos os apartamentos. Ainda estavam desconfiados, mesmo depois de todo aquele tempo. Torcia pra que os dois tivessem conseguido escapar — o que parecia ser o caso, uma vez que as autoridades negaram ter encontrado os dois, e os drones ainda rondavam aquela área. Se os tivessem capturado, teriam feito toda questão de anunciar. Quase que com um sorriso nos rostos — no caso, os que tivessem rostos.
Lina notou que a tela flutuante agora exibia uma imagem tridimensional dos seus finados sobrinhos. Um holovídeo gravado dias antes da tragédia que os acometeu: antes armazenado no holoterminal antigo, e transferido para o novo durante o processo de atualização que ocorrera no dia anterior. E agora, diante da imagem, ela via que os dois que estiveram em seu apartamento não eram realmente parecidos com eles. Mas ainda assim, algo dentro dela insistia. Teimava que, nas mãos daqueles dois e de seus pares, estava a chave do futuro. Foi o que a impeliu a arriscar-se a ajudá-los, como já havia feito com outros anteriormente. Porque aquilo era tudo o que restava fazer.
Um sinal de erro surgiu na tela. Normal. Intuição é um idioma alienígena para aquelas coisas. Esse lado irracional do ser humano era algo que nenhum holoterminal iria compreender. E a senhora certamente preferia que continuasse assim. Não gostaria de ser questionada por autoridades por conta de um pensamento errante. Mas era certo que, em algum lugar, estavam trabalhando para resolver aquele problema o mais rápido possível.
Ouviu Jorge espreguiçar-se no quarto. A luz do Sol já vencia a barreira do fluxo de tráfego aéreo, emergindo de trás dela.
Bebericando seu café, Lina suspirou profundamente.
Era tudo o que restava fazer.
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2019.06.03 17:20 euamocachorros79 [DQ] Vacância

Eu conheci Cardoso quando comecei a trabalhar na unidade da Secretaria de Desenvolvimento Agrário em Lxxxxx do Sul. Sabe aquela ideia que temos do funcionalismo público como ineficiente e indigno? Cardoso confirmava essa noção diariamente. Casaco às costas da cadeira. Cafezinho a cada hora. Aproveitava toda ocasião possível para manter sua conversinha sobre atualidades e amenidades. Evitava assuntos mais espinhosos como política ou futebol. Religião então, nem pensar. Gostava de passar o tempo calculando a quantidade de dias até a aposentadoria. Sabia exatamente o número de licenças, folgas e férias que poderia gozar a cada ano. Orgulhava-se de nunca ter sido advertido, cuidando para cumprir estritamente o necessário para tanto. Mesmo assim era ambicioso e torcia-se de ódio e inveja quando algum colega obtinha gratificação por confiança ou cargo de chefia. Passava horas a maldizer a própria sorte e colocava a culpa em sua incapacidade social. “Também pudera. Não sou amigo, puxa-saco desses que estão aí. Se eu, ao menos, conseguisse comer alguma chefe” remoía Cardoso. Eu escutava e prometia a mim mesmo jamais reproduzir seu comportamento. Externamente eu tentava motivá-lo. Talvez existisse ainda algo de bom dentro dele, algum potencial perdido durante os anos de tarefas burocráticas que pudesse ser resgatado. Mas ele não ouvia e preferia quedar-se apagado, sem brilho. Nesses dias faltava-lhe viço e não tentava conversar com mais ninguém. Solteiro, até tentei apresentar algumas amigas para ele, mas todas após o primeiro encontro diziam a mesma coisa: “Um tipo ordinário demais, comum ao extremo, não seria capaz de chamar atenção mesmo que usasse óculos escuros em dia de chuva.” Enfim, mulheres de destaque jamais se interessariam por ele.
Certa feita precisou renovar o passaporte e, após agendar o atendimento pela internet, perguntou se eu não poderia acompanhá-lo até o bonito prédio da Polícia Federativa em Sxxxx Cxxx do Sul. Ele não podia dirigir pois tinha machucado o braço direito num acidente bobo em casa. Ao chegarmos, cumpriu o protocolo com atenção. Não queria que algum detalhe burocrático o impedisse de viajar nas próximas férias. Após a coleta dos dados biométricos e assinatura digital era a vez da foto. Cardoso posicionou-se conforme as instruções do atendente, costas eretas e olhar fixo à frente. O rapaz que operava o sistema pareceu surpreso e pediu para que ele ficasse imóvel. Na terceira tentativa, sem sucesso, Cardoso exasperou-se e perguntou qual era o problema. “Acho que temos algum defeito no equipamento. Vamos trocar de estação de trabalho, por favor. Acompanhe-me até a próxima sala.”
Levantei os olhos e o vi deslocar-se, nitidamente transtornado, mas fiquei aguardando, lendo um livro de bolso trazido exatamente para auxiliar a passar o tempo. Uma história sobre gatos falantes e um homem pequeno capaz de entendê-los.
Cardoso seguiu o rapaz até uma sala reservada. Ao retornar, estava pálido e parecia suar bastante. Perguntei se ele precisava de água ou alguma outra coisa e ele só respondeu: “Vamos embora.”
Assim que entramos no carro ele começou a respirar bem fundo, buscando acalmar-se. Após alguns minutos começou a contar o que ocorrera enquanto estivera sozinho. Apesar de irritado pelo inconveniente, ele adentrou a sala indicada. Um senhor de bigodes brancos e rosto cansado perguntou para o atendente: “Tem certeza?” Ao que o mesmo respondeu com um menear afirmativo. A sala tinha pouca coisa além do computador, câmera fotográfica digital e aquele atendente mais velho. Uma sala estéril. O velho solicitou que Cardoso sentasse à frente da câmera e ficasse imóvel. Duas, três vezes o flash da câmera foi acionado. Sem saber o que estava acontecendo, Cardoso sentiu o sangue ferver novamente. Articulou o melhor que pode, escondendo a raiva. “O senhor pode me dizer o que está acontecendo?”
“Lamento, mas seu passaporte não poderá ser renovado.” Ainda não compreendendo muito bem a resposta do senhor de bigodes brancos, Cardoso perguntou o motivo. “Sua foto. Não conseguimos registrar sua foto. A cada tentativa seu rosto parece uma nuvem de estática. Veja aqui na tela.” Ele aproximou-se da tela e viu seis fotos, uma ao lado da outra. Em todas seu terno e gravata apareciam perfeitamente mas o rosto estava encoberto por estática. Como uma tevê não sintonizada. Um rosto de ruído branco.
“Só pode ser algum efeito no software de vocês. Aqui, eu mostro.” Sacou o celular e rapidamente tirou uma selfie. Não conseguiu segurar o grito quando viu o rosto de ruído branco estampado na tela do celular.
Eu ouvi tudo enquanto dirigia, meus olhos atentos à estrada. Assim que ele terminou de falar, o carro foi tomado pelo barulho dos pneus no asfalto. Lentamente diminuí a velocidade do carro e estacionei no acostamento. Perguntei se ele queria que eu tentasse também com o meu celular. "Não. Estou com medo de me ver daquele jeito de novo." Diante disso, liguei novamente o carro e retornamos para nossa cidade.
No dia seguinte, Cardoso não compareceu ao trabalho. Tentamos ligar para ele diversas vezes, sem sucesso. Depois de três dias, o procurei em casa. Buzinei, bati à porta e gritei seu nome. Todas as janelas estavam fechadas, as três edições do jornal da cidade depositadas junto à porta de entrada da casa. Pouco mais de um mês depois seu cargo foi declarado vago, por abandono. O chefe da nossa repartição até fez boletim de ocorrência.

Eu lembro do Cardoso. Diariamente, ao tomar meu cafezinho, tento também me lembrar do seu rosto, mas não consigo.
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2019.04.26 16:49 euamocachorros79 Mariola precisa de um veterinário e eu preciso de respostas

Ao chegar em casa fiz de tudo para tentar esconder o quanto eu tinha bebido. Fui direto para o banho, escovei os dentes umas três vezes, verifiquei se Sophia dormia bem e fui descansar. Ao deitar ao lado da minha esposa, fui recepcionado com um sorriso maroto, que logo se desfez, pois a Mariola ladrava.
- Essa cadela não parou de latir a noite toda. Até parece saber que tu não estava em casa. Vai lá ver o que está acontecendo.
Assenti e me levantei, procurando os chinelos e amaldiçoando os gatos da vizinhança. Eles parecem gostar de provocá-la, caminhando lentamente sobre o muro, numa demonstração que só pode ser deboche. Antes mesmo de abrir a porta da frente, Mariola tinha parado de latir, o que me dá a certeza de que ela reconhece meus passos pela casa. Chamei-a mas não obtive resposta. Normalmente ela vem correndo, agitando a cauda, à procura de um afago. Suspirei fundo e a chamei novamente. Nada. Eu sei que deveria procurá-la, mas estava cansado, um pouco bêbado e não queria caminhar na grama, já coberta de orvalho, molhando meus pés e a barra da calça do pijama. Não sem culpa, voltei para o conforto da cama e o abraço quente da minha esposa.
Pela manhã, segui minha rotina usual. Preparei o café da manhã para a Sophia, a ajudei com o uniforme, e enquanto ela fazia sua refeição fui alimentar e brincar com a Mariola. A bichinha estava no canil, enrolada sobre o próprio corpo, e quando me aproximei, levantou os olhos com a doçura de sempre. Mas não se levantou, nem veio brincar comigo.
- Hei. O que foi? Está de mau humor? Quer brincar? Cadê o brinquedo? Tentei as perguntas que sempre despertavam o pequeno furacão que se esconde na vira-latas e mesmo assim ela não se levantou. A tigela com comida estava intocada. E o nível da água quase o mesmo do dia anterior. Fiquei de cócoras e passei a mão no pelo lustroso e toquei o focinho. Seco. Isso não era nada bom.
Voltei para dentro de casa a tempo de levar minha filha para a escola, e ao retornar, tomei café com minha esposa.
- Ah! Esqueci de mencionar, tu precisa ver o forro. Acho que um gambá se alojou por ali. Ontem mesmo eu ouvi o ruído de patinhas no teto. Era tênue, mas depois foi ficando mais alto. Fiquei com medo. Ainda bem que a Sophia já estava dormindo.
- Sim, assim que possível eu vejo isso. Tu notou algo de diferente no comportamento da Mariola? Ela não me parece bem. O focinho está seco e quase não tocou na comida e água.
- Fora os latidos insistentes à noite, não. Tudo normal. Sophia e eu brincamos com ela antes de jantarmos e ela parecia a mesma maluquinha de sempre.
- Ok. Encerrei a conversa, já pensando em agendar uma consulta na veterinária o quanto antes.
Terminei de me arrumar e deixei minha esposa no trabalho. Ao chegar na prefeitura, parei diante da mesa vazia de Pedro. Ele sempre era um dos primeiros a chegar na repartição. Tentei não dar atenção àquilo e me concentrei no trabalho. Passada uma hora desde o início do expediente, Pedro adentrou a sala. Desviei os olhos da tela do computador e acompanhei seu deslocamento, normalmente com passadas vigorosas e seguras, mas agora ele caminhava com lentidão. E, de forma quase imperceptível, mancava.
-Bom dia, Pedro. Tudo bem? Tentei soar o mais normal possível, sem despejar minha curiosidade no seu colo de imediato, como meu cérebro implorava, num grito abafado dentro da cabeça.
- Tudo certo, Joel. Tudo certo.
- Sobre ontem à noite. Tudo certo também? Tu estava me contando sobre o Polaco e o acampamento e depois sumiu.
- Eu realmente não quero falar sobre isso agora, Joel.
- Está bem. Quer falar sobre o fato de estar mancando, então? Recebi um olhar de fúria.
- Eu realmente não posso falar sobre isso agora, Joel. Preciso trabalhar.
Meu sangue esquentou e eu estava pronto para começar uma discussão quando percebi que suas mãos tremiam muito. Ele pegou sua caneta e uma folha do bloco de anotações e escreveu o melhor que conseguiu, os garranchos em maiúsculas: CUIDADO COM O CÃO. Assim, que se certificou que eu lera a mensagem, começou a rasgar a folha com cuidado e método. Suas mãos pararam de tremer e começou a trabalhar, tão rápido quanto mudar a posição de um interruptor.
Confuso, voltei ao trabalho também. Eu não produzi muita coisa naquela manhã. Minha mente passeava entre a tragédia no ginásio, o que eu vi naquele dia, a saúde da Mariola e o comportamento de Pedro. Durante o almoço, eu consegui um encaixe com a veterinária.
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2019.01.07 05:06 sorvetegatinho Paulo

Pedaços de algodão e gaze amarelos de pus enchem o balde. Abriram todas as vidraças. E no calor da sala mergulho num banho de suor. Já me vestiram diversos camisões brancos, que em poucos minutos se ensoparam. Não posso afastar os panos molhados e ardentes.
As crianças estiveram a correr no chão lavado a petróleo.
— Retirem essas crianças.
Inútil trazê-las para aqui, mostrar-lhes o corpo que se desmancha numa cama estreita de hospital. Não as distingui bem na garoa que invade a sala: são criaturas estranhas, a recordação das suas fisionomias apagadas fatiga-me.
— Retirem essas crianças barulhentas.
As paredes amarelas cobrem-se de pus, o teto cobre-se de pus. A minha carne, que apodrece, suja a gaze e o algodão, espalha-se no teto e nas paredes.
A alguns passos, uma figura de mulher se evapora. Aproxima-se, está quase visível, tem uma cara amiga, uma vida que esteve presa à minha. Mas essa criatura, dificilmente organizada, pesa demais dentro de mim, necessito esforço enorme para conservar unidas as suas partes que se querem desagregar.
As minhas pálpebras cerram-se, a mulher esmorece, transforma-se em sombra pálida. Se me fosse possível falar, pedir-lheia que me deixasse.
Os médicos estiveram aqui há pouco, fizeram o curativo. Enquanto amarravam a atadura, os enfermeiros me levantavam, e eu me sentia leve, parecia-me que ia voar, flutuar como balão, esgueirar-me por uma janela, fugir do cheiro de petróleo e do calor, ganhar o espaço, fazer companhia aos urubus. As palmas dos coqueiros ficariam longe, na praia branca, invisíveis como a mulher que desapareceu na sala neblinosa. Os meus olhos não podem varar esta neblina densa.
Creio que dormi horas. O balde sumiu-se. Muitas pessoas falam, há um burburinho interminável na escuridão. Seria bom que me deixassem em paz. A conversa comprida rola na sala enorme; a sala é uma praça cheia de movimento e rumor.
A imobilidade atormenta-me, desejo gritar, mas apenas consigo gemer baixinho. Se pudesse, diria qualquer coisa à figura alvacenta, que tem agora as feições de minha mulher. Um assunto me preocupa, mas certamente ela não me entenderia se eu fosse capaz de expressar-me. Contudo necessito pedir-lhe que mande chamar o médico. A voz sai-me arrastada, provavelmente digo incongruências. Minha mulher espanta-se, grande aflição marcada nos beiços lívidos e na ruga da testa.
Aborreço-me, exijo que me levem para a enfermaria dos indigentes. Estaria lá melhor, talvez lá me compreendessem. Horríveis estas paredes. Sinto-me abandonado, lamento-me, injurio a criatura solícita que se chega à cama. Por que me olha com olhos de mal-assombrado? Não percebeu o que eu disse? Bom que me mandassem para a enfermaria dos indigentes.
A ferida tortura-me, uma ferida que muda de lugar e está em todo o lado direito. Procuro convencer minha mulher de que o lado direito se inutilizou e é conveniente suprimi-lo.
A enfermaria dos indigentes.
Que fim teria levado o médico? Ele me compreenderia, não me olharia com espanto e ruga na testa.
A minha banda direita está perdida, não há meio de salvá-la. As pastas de algodão ficam amarelas, sinto que me decomponho, que uma perna, um braço, metade da cabeça, já não me pertencem, querem largar-me. Por que não me levam outra vez para a mesa de operações? Abrir-me-iam pelo meio, dividir-me-iam em dois. Ficaria aqui a parte esquerda, a direita iria para o mármore do necrotério. Cortar-me, libertar-me deste miserável que se agarrou a mim e tenta corromper-me.
A neblina se dissipa, as paredes se aproximam, estão visíveis as folhas dos coqueiros e o telhado da penitenciária, o avental da enfermeira aparece e desaparece.
A ruga da testa de minha mulher desfez-se. Provavelmente ela supôs que o delírio tinha terminado. Absurdo imaginar um indivíduo preso a mim, um indivíduo que, na mesa de operações, se afastaria para sempre. Arrependo-me de ter revelado a existência do intruso. Certamente minha mulher vai afligir-se com a loucura que me persegue.
Fecho os olhos, vexado, como um menino surpreendido a praticar tolice. Finjo dormir: talvez minha mulher julgue que falei em sonho. Contenho a respiração, o suor corre-me na cara e no pescoço.
Lá fora eu era um sujeito aperreado por trabalhos maçadores, andava para cima e para baixo, como uma barata. Nunca estava em casa. Recolhia-me cedo, mas o pensamento corria longe, fazia voltas em redor de negócios desagradáveis. Recordações de tipos odiosos, rancor, a ideia de ter sido humilhado, muitos anos antes, por um sujeito que se multiplicava.
O nevoeiro embranquece novamente a sala, as paredes somem-se, o rosto da mulher mexe-se numa sombra leitosa. Torno a desejar que me levem para a mesa de operações, cortem as amarras que me ligam ao intruso.
Evidentemente uma pessoa achacada tomou conta de mim. Esta criatura surgiu há dois meses, todos os dias me xinga e ameaça, especialmente de noite ou quando estou só. Zango-me, discuto com ela, penso em João Teodósio, espirita e maluco. João Teodósio tem olhos medonhos, parece olhar para dentro e fala nos bondes com passageiros invisíveis. O homem que se apoderou do meu lado direito não tem cara e ordinariamente é silencioso. Mas incomoda-me. Defendo-me, grito palavrões, e o sem-vergonha escuta-me com um sorriso falso, um sorriso impossível, porque ele não tem boca.
Tentei ler um jornal. As linhas misturavam-se, indecifráveis. Receei endoidecer, mastiguei uns nomes que minha mulher não entendeu, queixei-me do médico e de Paulo. Como ela não conhecia Paulo, impacientei-me, julguei-a estúpida, esforcei-me por me virar para o outro lado, o que não consegui.
Certamente as criaturas que me cercam embruteceram, são como as crianças que estiveram correndo no chão lavado a petróleo. A enfermeira tem caprichos esquisitos, o médico não perceberá que é necessário operar-me de novo, minha mulher franze a testa e arregala os olhos ouvindo as coisas mais simples.
Comecei um discurso, uma espécie de conferência, para explicar quem é Paulo, mas atrapalhei-me, cansei e desprezei aquelas inteligências tacanhas. Tempo perdido. Sentia-me superior aos outros, apesar de não me ser possível exprimir-me.
Realmente Paulo é inexplicável: falta-lhe o rosto, e o seu corpo é esta carne que se imobiliza e apodrece, colada à cama do hospital. Entretanto sorri. Um sorriso medonho, sem dentes, sorriso amarelo que escorre pelas paredes, sorriso nauseabundo que se derrama no chão lavado a petróleo.
Escurece. A camisa molhada já não me escalda a pele: esfriou, gelou. E os meus dentes batem castanholas. Morrem os cochichos que zumbiam na sala. Alguém me pega um braço, dedos procuram a artéria.
A escuridão se atenua, o burburinho confuso reaparece, a camisa torna a queimar-me a pele, os dentes calam-se. Incomoda-me a pressão que me fazem no pulso, tento libertar o braço. A mão desconhecida tateia, procurando a artéria. Há um zum-zum na sala, vozes confundem-se como rumor de asas num cortiço. Sinto ferroadas terríveis na ferida.
Os dedos seguram-me, tenho a impressão de que Paulo me agarra. Um ruído enfadonho, provavelmente reprodução de maçadas antigas, berros de patrões, ordens, exigências, choradeira, gemidos, pragas, transforma-se num sussurro de abelhas que Paulo me sopra ao ouvido. Agito a cabeça para afugentar o som importuno. Se pudesse, cobriria as orelhas com as palmas das mãos.
Afinal ignoro quem é Paulo e reconheço que minha mulher tem razão quando me oferece pedaços de realidade: visitas de amigos, colheres de remédio, a comida horrível.
Devo aceitar isso. Curar-me-ei, percorrerei as ruas como os outros. A princípio arrastar-me-ei pelos corredores do hospital, com muletas, parando às portas das enfermarias dos indigentes; depois sairei, a perna ainda encolhida, andarei escorado a uma bengala, habituar-me-ei a subir nos bondes, verei João Teodósio fazendo sinais misteriosos a um lugar vazio.
Preciso resistir às ideias estranhas que me assaltam. Bebo o remédio, peço a injeção, espero ansioso que o médico venha mudar a gaze e o algodão molhado de pus.
Entrarei nos cafés, conversarei sobre política. Uma, duas vezes por semana, irei com minha mulher ao cinema. De volta, comentaremos a fita, papaguearemos um minuto com os vizinhos na calçada. Não nos deteremos diante da porta de João Teodósio. Apressaremos o passo, fugiremos daqueles olhos medonhos de quem vê almas.
Em que estará pensando João Teodósio? Minha mulher interroga-me admirada, repete palavras incoerentes que dirigi a João Teodósio.
Sem querer, entro a palestrar com ele, de volta do cinema. Apoio-me à bengala e suspendo um pouco a perna avariada.
A ferida começa a torturar-me. Não estou de pé, cavaqueando com um vizinho amalucado, estou de costas num colchão duro. Veio-me um acesso de tosse, e o tubo de borracha que me atravessa a barriga parece um punhal. Gemo, o suor corre-me entre as costelas magras como as de um cachorro esfomeado. Tenho sede. A enfermeira chega-me aos beiços gretados um cálice de água. Bebo, ponho-me a soluçar. Os soluços sacodem-me, rasgam-me, enterram-me o punhal nas entranhas.
Estou sendo assassinado. Em redor tudo se transforma. O avental da enfermeira ficou transparente como vidro. Minha mulher abandonou-me. Acho-me numa floresta, caído, as costas ferindo-se no chão, e um assassino fura-me lentamente a barriga. As paredes recuam, fundem-se com o céu, as folhas dos coqueiros tremem, e passa entre elas o cochicho que zumbe na sala.
Paulo está curvado por cima de mim, remexe com um punhal a ferida. Estertor de moribundo na floresta, perto de um pântano. Há uma nata de petróleo na água estagnada, coaxam rãs na sala.
Não conheço Paulo. Tento explicar-lhe que não o conheço, que ele não tem motivo para matar-me. Nunca lhe fiz mal, passei a vida ocupado em trabalhos difíceis, caindo, levantando-me, cansado. Peço-lhe que me deixe, balbucio súplicas nojentas. Não lhe quero mal, não o conheço.
Mentira. Sempre vivemos juntos. Desejo que me operem e me livrem dele.
Sairei pelas ruas, leve, e o meu coração baterá como o coração das crianças. Paulo ficará na mesa de operações, continuará a decompor-se no mármore do necrotério.
O que estou dizendo, a gemer, a espojar-me, é falsidade. Paulo compreende-me. Curva-se, olha-me sem olhos, espalha em roda um sorriso repugnante e viscoso que treme no ar.
Uma figura branca desmaia. O burburinho finda. Alguém me segura novamente o braço, procurando a artéria. O punhal revolve a chaga que me mata.

- Graciliano Ramos
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2018.10.01 06:29 CousinBazilio O PT é uma ameaça maior à democracia do que Bolsonaro. Ou porque as ações demonstram mais que as palavras

1 - O PT tocou dois dos maiores escândalos de corrupção da história recente. Isso destruiu por completo a confiança que o brasileiro tem no sistema político, cujo momento eleitoral é o ruído final de qualquer esperança que as pessoas tiveram no passado quanto às possibilidades de mudança na sociedade por meio da político;
2 - Tentaram mudar as regras de financiamento partidário, enquanto se beneficiavam dele e se abasteciam com dinheiro público;
3 - Compraram o Parlamento e lotearam os cargos da Administração Federal, sobretudo nos momentos de maior apoio popular, amplo poder de fogo para impor reformas essenciais, se afastando, portanto, dos anseios dos seus apoiadores, simpatizantes, e sobretudo a população, que embora não majoritariamente afiliada ao campo político que o partido representa, depositou as fichas nessa ideia;
4 - Apoiaram financeiramente e politicamente a desestruturação institucional de um país vizinho, porquanto seu chefe de Estado e ditador, é um aliado político, transformando a legendária diplomacia brasileira, um dos bastiões do nosso soft power, em chacota mundial;
5 - Possuem um admiração histórica por ditaduras de seu campo ideológico, o que demonstra que o partido não compartilha com os valores democráticos, ao contrário, joga as regras do jogo porque ainda não conseguiu efetivamente anulá-las e criar outras a seu gosto, graças a efusiva resistência de diversos setores da sociedade, incluindo de partidos fisiológicos (PMDB), que não embarcaram por completo na loucura petista;
6 - Não aceitaram um processo constitucional de deposição do presidente, queimando a imagem do país dentro e fora, principalmente, alegando a ocorrência de um golpe, quando tentou fazer o mesmo inúmeras vezes no passado;
7 - Desrespeitam sistematicamente a Justiça, o que ficou ainda mais claro nas últimas semanas, com a insistência do partido em veicular propagandas eleitorais com Lula como candidato, mesmo depois da rejeição da candidatura pelo TSE;
8 - É um partido organizado, quiçá o único do país, que se volta agora a atender o ego e loucura de um homem, cuja brilhante trajetória chafurda na lama, graças a seus próprios erros; se não for essa a sua verdadeira face: a de uma existência risível, um homem mau e sedento de poder;
9 - Rejeita a atual Constituição desde seu nascedouro e desde há muito vende a ideia, preciosa a seu intento, de uma nova Constituinte exclusiva, de que não se sabe nada (o que é, a que se propõe, no que pode resultar);
10 - Cultivou o atual momento de ruptura social durante anos, e agora finge-se de vítima (aliás, vem se fingindo desde sempre), com o discurso de nós contra eles, alijando parte da sociedade, que se viu transformada em inimigo a ser destruído, porquanto "nós" é o grupo de virtuosos, os outros o alvo a ser reeducado ou extinto. Pode se dizer, sem medo de errar, que a hipocrisia política do período de redemocratização é cria do PT.
11 - Desrespeitou a palavra do povo em uma votação direta, ao criar os maiores obstáculos possíveis a comercialização de armas. Goste-se ou não da ideia, seja a favor ou não, o limbo burocrático que se tornou adquirir uma arma no Brasil é um desrespeito claro ao decidido em 2005;
Eu poderia citar vários outros motivos em relação ao PT. Mas agora cito os de Bolsonaro para efeito de comparação:
1 - É declaradamente um sujeito autoritário, desconhecedor de princípios básicos, sobretudo o democrático, um inveterado - e caricato - defensor da ditadura militar e de um de seus principais expoentes;
2 - Passou os últimos 30 anos ocupando cargos em legislaturas, sem ter logrado êxito em transformar seus projetos de lei em normas efetivas;
3 - Tem um histórico de declarações aberrantes, desrespeitosas, indignas de alguém que quer se presidente da República e lider da nação, em relação diversos grupos da sociedade;
4 - É despreparado, possivelmente massa de manobra de muitos que estão ao seu redor, desde seu vice e do seu guru econômico ao líder interino de seu partido;
5 - Pode não ser corrupto, mas é claramente um beneficiário do sistema, um possível sonegador, um imoral, cujo mote quando acusado é retribuir a acusação.
E poderia citar mais.
Olhando esses fatos, eu não tenho dúvidas: o PT é uma ameaça maior. E se diante de uma espada de Dâmocles devemos de algo abdicar, que seja de uma vez por todas do partido mais nefasto da atual política brasileira.
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2018.09.29 04:06 seucarro Carros no Brasil, como comprar um carro usado

Carros no Brasil, como comprar um carro usado
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Confira dicas para vender seu carro de forma segura

Saiba como comprar um carro de forma mais segura: Para não levar gato por lebre, siga nossas dicas e adquira um ótimo seminovo
Com a instabilidade financeira que assombra o mercado, os reajustes dos veículos 0km tem subido mensalmente e é claro que o consumidor tende a reclamar, visto que os valores não consistem em sinônimo de boa compra.
Assim, é fácil encontrar veículos que não oferecem sequer um ar-condicionado e, em algumas vezes, nem direção hidráulica; itens que fazem falta no território brasileiro por conta do clima e da condição das estradas. Diante dessa situação, o brasileiro optou por adquirir carros seminovos e usados ao invés dos 0km.
Como toda vantagem tem um “porém”, essa não é diferente. Cabe ao consumidor checar o veículo antes da compra e averiguar se de fato é um bom negócio. Veja as dicas que preparamos e avalie o seu próximo veículo, evitando futuros prejuízos.

1- O que olhar primeiro no usado ou seminovo na hora da compra?

Apresentamos dois passos: o primeiro é escolher uma concessionária da marca do veículo desejado, pois, geralmente, os carros vendidos nesses locais são mais confiáveis e “honestos” quanto aos dados do automóvel.
O segundo é sempre levar um mecânico de confiança junto, com um especialista ao lado fica difícil passar algo despercebido e ele saberá por onde começar a avaliar o veículo.

2- Qual o melhor local para a compra de carros usados ou seminovos?

Primeiro opte pela concessionária da marca pretendida ou loja. Esses locais sempre fazem uma análise antes de entregar o veículo ao novo proprietário, verificando se é um carro sinistrado ou se existe algum bloqueio administrativo.
Outros locais bons para a compra são as locadoras de veículos, pois elas oferecem carros que são adquiridos de um único dono.

3- Visualmente, o que devemos olhar primeiro?

Ao checar o veículo sempre olhe os itens de segurança, como a validade do extintor, as chaves de rodas no porta-malas, o triângulo de sinalização e a condição do estepe.
É interessante, ainda, verificar os níveis de óleo do motor e a periodicidade da troca, pois, assim é possível averiguar em que condições está o motor e como o antigo dono fazia a manutenção do veículo.

4- Falando de mecânica: quais testes devem ser feitos?

A dica é: ligue o motor em marcha lenta e sinta o ruído do carro e a vibração no volante e no câmbio (caso o carro seja manual).
Um simples teste desses pode ser feito com uma volta no quarteirão, fazendo com que se averigue se há folga no pedal do freio e como estão os amortecedores ao passar por um buraco.
Aqui vale a dica de antes: leve um mecânico junto, como ele é um profissional da área, ao ligar o carro identificará possíveis problemas.

5- Alguma dica para saber se o carro foi batido ou não?

Geralmente, é visível a percepção de uma batida no veículo. Por isso, por garantia, verifique o alinhamento das portas, capôs e bagageiro.
Veja se há diferenças nas tonalidades da cor na lataria; verifique os parafusos, principalmente os das portas, pois quando o carro sai da fábrica eles vêm pintados com a mesma tinta do carro, se eles estiverem de outro tom ou espanados é sinal de que alguém já mexeu neles.

6- Depois da compra do carro, quais os procedimentos burocráticos?

Primeira coisa: faça o comunicado de venda do carro no Detran (Departamento Estadual de Trânsito) e transfira-o num prazo de 30 dias.
No site do Detran é possível ver um passo a passo de como proceder com a documentação e verificar as pendências do veículo; caso haja algo atrasado, a transferência só é efetivada com a quitação da dívida pendente.

7- É possível saber se foram feitas revisões anteriores?

Dê preferência para os veículos que possuem o manual do proprietário, é lá que estão todos os carimbos das revisões feitas. Para averiguar o recall peça ao vendedor a carta de convocação e o comprovante da autorizada, é ele quem possui essa documentação que deverá ser entregue ao novo proprietário.

8- E como saber se consta alguma pendência jurídica?

Simples: com o número do CPF ou CNPJ do antigo dono em mãos, basta acessar o site do Detran, da Secretaria da Fazenda ou o site da prefeitura do município e fazer a consulta do veículo.

9- E quanto à autenticidade do chassi e do motor?

Em qualquer unidade do Detran eles irão te aconselhar a fazer uma vistoria do veículo para garantir a legalidade do veículo. Ela é gratuita e ainda verifica os itens essenciais do carro, como os retrovisores, pneus, extintores, espelhos, entre outros. Após a vistoria, o laudo sai em até 30 dias, tempo para o processo da transferência.

10- Há proteção jurídica para a compra de carro de um particular? E de estabelecimento comercial?

Nas concessionárias e nas lojas o consumidor e assegurado pelo Código de Defesa do Consumidor, tendo um prazo de 90 dias da data da compra para reclamar de vícios existentes no carro, não se restringindo apenas a defeitos no motor e na caixa cambial.
Já no caso de uma compra com particular, o regimento se dá pelo Código Civil, mas a burocracia é mais complicada e lenta, pois caso dê algum problema será necessária a contratação de um advogado para ajuizar uma ação.
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2018.09.22 17:54 seucarro Como vender um carro usado com mais segurança

Saiba como comprar um carro de forma mais segura: Para não levar gato por lebre, siga nossas dicas e adquira um ótimo seminovo

Com a instabilidade financeira que assombra o mercado, os reajustes dos veículos 0km tem subido mensalmente e é claro que o consumidor tende a reclamar, visto que os valores não consistem em sinônimo de boa compra.
Assim, é fácil encontrar veículos que não oferecem sequer um ar-condicionado e, em algumas vezes, nem direção hidráulica; itens que fazem falta no território brasileiro por conta do clima e da condição das estradas. Diante dessa situação, o brasileiro optou por adquirir carros seminovos e usados ao invés dos 0km.
Como toda vantagem tem um “porém”, essa não é diferente. Cabe ao consumidor checar o veículo antes da compra e averiguar se de fato é um bom negócio. Veja as dicas que preparamos e avalie o seu próximo veículo, evitando futuros prejuízos.
Artigo relacionado: Melhores carros usados custo benefício

1- O que olhar primeiro no usado ou seminovo na hora da compra?

Apresentamos dois passos: o primeiro é escolher uma concessionária da marca do veículo desejado, pois, geralmente, os carros vendidos nesses locais são mais confiáveis e “honestos” quanto aos dados do automóvel.
O segundo é sempre levar um mecânico de confiança junto, com um especialista ao lado fica difícil passar algo despercebido e ele saberá por onde começar a avaliar o veículo.
Vendendo o carro? Anuncie para mais de 7 milhões de potenciais compradores em todo o Brasil gratuitamente e venda seu carro usado ou seminovo de forma rápida e segura.

2- Qual o melhor local para a compra de carros usados ou seminovos?

Primeiro opte pela concessionária da marca pretendida ou loja. Esses locais sempre fazem uma análise antes de entregar o veículo ao novo proprietário, verificando se é um carro sinistrado ou se existe algum bloqueio administrativo.
Outros locais bons para a compra são as locadoras de veículos, pois elas oferecem carros que são adquiridos de um único dono.

3- Visualmente, o que devemos olhar primeiro?

Ao checar o veículo sempre olhe os itens de segurança, como a validade do extintor, as chaves de rodas no porta-malas, o triângulo de sinalização e a condição do estepe.
É interessante, ainda, verificar os níveis de óleo do motor e a periodicidade da troca, pois, assim é possível averiguar em que condições está o motor e como o antigo dono fazia a manutenção do veículo.

4- Falando de mecânica: quais testes devem ser feitos?

A dica é: ligue o motor em marcha lenta e sinta o ruído do carro e a vibração no volante e no câmbio (caso o carro seja manual).
Um simples teste desses pode ser feito com uma volta no quarteirão, fazendo com que se averigue se há folga no pedal do freio e como estão os amortecedores ao passar por um buraco.
Aqui vale a dica de antes: leve um mecânico junto, como ele é um profissional da área, ao ligar o carro identificará possíveis problemas.

5- Alguma dica para saber se o carro foi batido ou não?

Geralmente, é visível a percepção de uma batida no veículo. Por isso, por garantia, verifique o alinhamento das portas, capôs e bagageiro.
Veja se há diferenças nas tonalidades da cor na lataria; verifique os parafusos, principalmente os das portas, pois quando o carro sai da fábrica eles vêm pintados com a mesma tinta do carro, se eles estiverem de outro tom ou espanados é sinal de que alguém já mexeu neles.

6- Depois da compra do carro, quais os procedimentos burocráticos?

Primeira coisa: faça o comunicado de venda do carro no Detran (Departamento Estadual de Trânsito) e transfira-o num prazo de 30 dias.
No site do Detran é possível ver um passo a passo de como proceder com a documentação e verificar as pendências do veículo; caso haja algo atrasado, a transferência só é efetivada com a quitação da dívida pendente.

7- É possível saber se foram feitas revisões anteriores?

Dê preferência para os veículos que possuem o manual do proprietário, é lá que estão todos os carimbos das revisões feitas. Para averiguar o recall peça ao vendedor a carta de convocação e o comprovante da autorizada, é ele quem possui essa documentação que deverá ser entregue ao novo proprietário.

8- E como saber se consta alguma pendência jurídica?

Simples: com o número do CPF ou CNPJ do antigo dono em mãos, basta acessar o site do Detran, da Secretaria da Fazenda ou o site da prefeitura do município e fazer a consulta do veículo.

9- E quanto à autenticidade do chassi e do motor?

Em qualquer unidade do Detran eles irão te aconselhar a fazer uma vistoria do veículo para garantir a legalidade do veículo. Ela é gratuita e ainda verifica os itens essenciais do carro, como os retrovisores, pneus, extintores, espelhos, entre outros. Após a vistoria, o laudo sai em até 30 dias, tempo para o processo da transferência.

10- Há proteção jurídica para a compra de carro de um particular? E de estabelecimento comercial?

Nas concessionárias e nas lojas o consumidor e assegurado pelo Código de Defesa do Consumidor, tendo um prazo de 90 dias da data da compra para reclamar de vícios existentes no carro, não se restringindo apenas a defeitos no motor e na caixa cambial.
Já no caso de uma compra com particular, o regimento se dá pelo Código Civil, mas a burocracia é mais complicada e lenta, pois caso dê algum problema será necessária a contratação de um advogado para ajuizar uma ação.

Boas vendas!

Redação SeuCarro.net Classificados
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2017.07.25 02:35 GeorgiaKeeffe Minha impressões sobre o Nextel Happy

Como todo novo produto hoje em dia, Nextel reuniu alguns influenciadores para divulgar seu novo produto, com o argumento de "empoderar" o usuário, para uma telefonia 100% digital. O projeto foi desenvolvido em parceira com a Ericsson, mas acho que esqueceram de planejar o que realmente é relevante para usuários jovens e digitais e como tem se comportado o mercado.
*Contexto: *
Eu tinha um plano tecnicamente conhecido por 3G Smart Ctr45157/Pós/SMP, feito em 2013. Oferecia Nextel-Nextel gratuíto, 500mb de internet, 45 minutos de ligações locais por R$57,00/mês. A Nextel com frequência forçava a barra para eu trocar este plano (inclusive mandei um processinho à galope para eles, por terem forjado provas em uma suposta troca de plano, isso incluiu uma falsa ligação de voz e alguns protocolos falsos) e costumeiramente pessoas próximas me questionavam porque eu só tinha isso, se sou heavy user.
*Detalhando o Plano Antigo: *
*Porque mudei? *
Passei a viajar muito mais e o plano não tinha roaming nacional (utilizava a internet normalmente, mas não efetuava ou recebia ligações, meio louco isso, mas essas eram as regras do jogo), caso quisesse, teria que pagar R$10,00 extras, elevando o custo para R$67,00 mensais tornando o custo-benefício quase que inexistente.
*Detalhando o Plano Novo: *
Pagamento via cartão de crédito ou recarga, com as seguintes opções:
*Problemas: *
A impressão que tenho é que, como tudo em telefonia no brasil, tudo funciona perfeitamente no powerpoint e nas salas de reunião, mas na hora de tornar o projeto em realidade, são vários 360º voltando para mais do mesmo, de qualquer forma, já abri reclamações no Consumidor.gov, Reclame Aqui e Anatel, se não resolverem, mais um processinho à galope chegará :)
Edit: Referências
Edit²:
O atendimento Happy sugeriu por email que eu fosse pelo app, entrasse pelo CPF e esquecer senha, só que nesse bug, eu fiquei com uma linha extra vinculado no meu cpf, mas sem número
Nesse gap do sistema, me foi cobrado 2X no cartão. Tentei reportar pelo app, nas opções de "Problemas com Recarga", ele retorna, "Recarga não identificada, Não se preocupe, também não houve cobrança deste valor.", entrei em contato com o 1050 e a atendente da Happy não conseguiu estornar e o supervisor dela não estava na empresa na hora, teve que abrir um chamado para a Engenharia da Nextel resolver. AHHHHHHH NEXTEL, ME AJUDA, QUE EU TE AJUDO!
Edit 3 07/08/2017: Os planos do Happy mudaram, ficaram levemente mais caros, mas moderno diante das práticas do mercado: O que mudou: Minutos ilimitados para qualquer lugar do Brasil e qualquer operadora no plano mensal, para o semanal tem 100 minutos inclusos para qualquer número SMS ilimitados para qualquer lugar do Brasil e qualquer operadora
Regras para o "Ilimitado" dos Apps Whatsapp, Messenger,Telegram e Allo, o que supostamente é ilimitado sem desconto na franquia, fica mais explicito que há um limite de 1,5gb no plano mensal e 350mb no semanal (como o avançado nível de compressão de dados desses apps, é mais do que suficiente)
Update:
Aferi a velocidade, coincidentemente, a cerca de 800 metros da sede da operadora no (condições melhores que isso, impossível), a velocidade após a franquia está limitada à 5kbps, repito cinco quilobites por segundo, para referência internet discada girava em torno de 56kbps-112kbps, se tornou inviável o uso, acredito que seja algum flag no sistema interno deles, pois no contrato do Happy a velocidade é a mesma do plano anterior. Abri uma reclamação, que foi logo fechada, sugerindo A TROCA DO APARELHO, rs rs rs.
Recebi ligação de um Atendente, que com relação à velocidade, confirmou que seria problema do aparelho, quando contra argumentei, disse que eu estava fora do meu estado e isso poderia ser o motivo da queda de velocidade, aproveitei uma certa flexibilidade e aferi a velocidade em 3 estados diferentes em uma semana, tirei printscreen da velocidade e do mapa da região onde eu estava e adicionei como anexo nas reclamações, vamos aguardar.
TL;DR : Acreditei que o novo plano da Nextel Happy "inovador" viria com um conceito disruptivo, mas é mais do mesmo, com uma semana, listei diversos problemas e falhas de projeto.
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Um ar o que kkkkkk Diante do Trono + LETRA Nível de Exposição ao Ruído - Aposentadoria Especial! FAÇA O QUE TU QUERES, POIS É TUDO DA LEI O Seu problema é NADA diante de um Deus que pode TUDO ... ✅Como Classificar um Ruído Intermitente?  Core Safety Academy Análise de ruído galático de fundo Regulador com ruídos, o que devo fazer? Ruído acima dos 70km/h Clio Authentique 2015 - Alguém sabe o que é? O sinal e o ruído

AFINAL O QUE É O RUIDO AMBIENTAL? e-licencie

  1. Um ar o que kkkkkk
  2. Diante do Trono + LETRA
  3. Nível de Exposição ao Ruído - Aposentadoria Especial!
  4. FAÇA O QUE TU QUERES, POIS É TUDO DA LEI
  5. O Seu problema é NADA diante de um Deus que pode TUDO ...
  6. ✅Como Classificar um Ruído Intermitente? Core Safety Academy
  7. Análise de ruído galático de fundo
  8. Regulador com ruídos, o que devo fazer?
  9. Ruído acima dos 70km/h Clio Authentique 2015 - Alguém sabe o que é?
  10. O sinal e o ruído

Um dos maiores erros de muitas agências do INSS é descaracterizar o ruído como tempo para aposentadoria especial por informar que o segurado ficou exposto ao ruído durante as 08 (oito) horas ... Diante do Trono do grupo Diante do trono Um cântico de adoração em humilhação sincera diante da majestade de Deus que é a força e o refúgio de todo que Nele crê. O carro é um Renault Clio Authentique 1.0 16v 2014/2015 câmbio manual. Quando passo dos 70km/h, começa a fazer esse ruído do vídeo, que parece que vem do câmbio. O ruído persiste quando ... O software então detecta esta 'identidade' e a remove da gravação, deixando tudo aquilo que não é ruído cósmico de fundo. Dados coletados do Harvey 1, ... Inicialmente peço que desconsidere o ruído provocado pelo vento que foi inevitável. E nesse vídeo rápido será mostrado um outro modo de enxergar a vida no que se refere à moralidade. Neste vídeo da série Minuto Ocupacional, eu vou te explicar como classificar um ruído intermitente e ainda mostrar o que as nossas normas e legislações dizem sobre isto! Caso você perceba que o seu regulador está com algum ruído, assista o vídeo e veja o procedimento correto a ser adotado. Musica :Você o barco e o mar (Jonatas) Vai la no like é muito divertido é tem muitas emoçoes alegria vc pode ter live muito légua é me siga lá beijos Tchal. Gilberto Musto fala sobre o conteúdo do livro de Nate Silver 'O sinal e o ruído' que aborda sobre as previsões, umas que dão muito certo e outras que dão muito errado.